27 janeiro 2013

RM - Capítulo 17




No capítulo anterior...
            – Bella...
            ­– Hm... – respondi, acariciando seus braços em minha cintura.
            – Eu não quero que isso termine...
            – Eu também não – Fechei os olhos com força, suspirando e sentindo-o virar meu corpo, fazendo-me olhar em seus olhos vibrantes.
            – Vamos esquecer de tudo por um dia... Vamos voltar no tempo e ser apenas nós dois por algumas horas. Sem problemas, sem interrupções... Apenas nós dois.
            Eu apenas o encarei surpresa, mordendo o lábio inferior e perdendo-me em seu olhar suplicante e incerto. E deixei-me levar, deixei-me ser insana e agir por ele, mesmo que por mais alguns instantes. Por um único dia.


Capítulo 17 – Vietato



            Em tantos dias, em tantas noites e imaginares, eu sonhava com a cena a qual o passado me trouxe. Ela ali me observava de olhos semicerrados e cenho levemente franzido ao fitar o horizonte que a estrada nos levava – um sorriso brincando em nossos lábios a cada segundo em que, revivendo momentos de quinze anos atrás, ela me dava uma bronca por dirigir tão rápido.
            – O trem para Veneza não vai sair voando! – Bella brincou, sorrindo levemente enquanto procurava alguma música decente no porta-luvas do Volvo.
            – Nunca se sabe! – sorri de volta, desacelerando minimamente.

Para ouvir: One Republic – Secrets

            Nós parecíamos dois jovens insanos e inconsequentes fugindo de casa, mas naquele instante fugíamos apenas de nossas obrigações e responsabilidades que sabíamos ter de voltar. Como ela havia prometido a mim, tiraríamos aquele dia apenas para nós dois, desfrutando o ar e o sol italiano, juntos – somente um dia sem dar satisfações ou sentir culpa. Eu sei que tinha mais no que pensar, mas sabe aquele bichinho que fica nos cutucando até fazermos o que realmente desejamos? Ele me inquietava, e eu estava dando ouvidos a ele.
            O mar italiano logo começava a perder espaço para as imensas planícies e plantações de lavandas e girassóis. Bella olhou para mim com um sorriso que causaria inveja até a uma imperatriz Romanov, fazendo-me sentir que aquele momento era realmente apenas nosso – e ninguém nos roubaria aquilo.
            – Você é linda! – murmurei num sorriso, olhando-a de soslaio enquanto ouvia o leve rock preencher todo o carro.
            Ela apenas sorriu de volta, meneando a cabeça e revirando os olhos carinhosamente.
            – Falou o Sr. Deslumbre! – contra-atacou com um sorriso irônico, mexendo sugestivamente as sobrancelhas. Eu gargalhei inevitavelmente, sendo acompanhado por sua risada de sinos enquanto ela cantarolava a suave música.
            Chegamos apurados à antiga estação de trem, ouvindo o som característico da maria-fumaça avisando que a partida já era dada.
            – Ah, não, chegamos atrasados! – Bella soltou um muxoxo ao ver o trem começando a se movimentar.
            Olhei para os lados e vi a bilheteria sendo fechada por um idoso.
            – Hey, o senhor! – gritei, correndo em sua direção – Espere, queremos comprar passagens pra esse trem!
            – Desculpe-me, meu jovem, mas o próximo expresso só parte ao final da tarde – respondeu calmamente.
            – Por favor, será que não há pelo menos duas passagens pra agora? – perguntei, tirando alguns fios de cabelo que caíam sobre meus olhos, sentindo a aproximação tranquila e curiosa de Bella.
            – Eu lamento... – ele deu um sorriso de desculpas, ressaltando as rugas que despontavam em suas têmporas, continuando seu trabalho ali.
            Bella fitou-me com seus olhos suavemente frustrados, franzindo o cenho divertidamente, porém, ao ver um sorriso matreiro se formar em meus lábios.
            – O que você...
            – Vamos! – sorri, pegando sua mão e puxando-a ao trem que ganhava cada vez mais movimento.
            – O quê? – questionou com uma doce risada, acompanhando-me, confusa.
            – Vamos logo, o próximo trem só sai pela tarde!
            – Mas não temos tickets! - continuou rindo, provavelmente julgando minha sanidade. E com um sorriso ainda maior, prossegui.
            – E quem precisa de tickets?
            Ela nem teve tempo de me deter; logo eu segurava sua cintura enquanto pulávamos no trem. Encaramo-nos cúmplices, vendo a cidade litorânea ficar, aos poucos, para trás – e o velhinho da estação dando algum sermão em nós, ao longe.
            – Não acredito que estamos dando uma de penetras! – Bella riu, divertida, escondendo o rosto em minha camisa.
            – Nem eu! – acompanhei-a, ao passo em que a puxava mais e mais contra mim, sentindo seu corpo quente acalentar o meu.
Após alguns minutos apenas contemplando a bela vista da imaculada Itália, adentramos o vagão do trem, rindo ao olhar para os lados e constatar que não havia fiscais por ali, apenas dois pares de pessoas em seus assentos. Puxei delicadamente a mão de Bella enquanto me sentava em um dos últimos lugares, aconchegando-a em meu peito ao passo em que observávamos alguns vinhedos e pinheiros tomarem conta da vegetação aberta e incrivelmente linda.
– Parece um lugar de contos de fadas, você não acha? – ela perguntou com a voz baixa e carinhosa em meu ouvido, brincando com os dedos da minha mão livre. – Sinto como se, a qualquer momento, a Julieta pudesse aparecer na varanda de alguma dessas casinhas, procurando por Romeu.
– É verdade – sorri, dando um beijo no topo de sua cabeça, sem conseguir retirar os olhos de tão perfeita paisagem.
– Acho que, de todos os lugares em que já estive nesses anos, não há beleza que se compare a Itália! – suspirou.
– Nem mesmo a minha? – perguntei, mexendo as sobrancelhas sugestivamente enquanto ela revirava os olhos, tentando esconder um sorriso.

17 janeiro 2013

Texto: Ride


E pra dar uma esquentada no capítulo novo de Respiro Me que chega semana que vem, eu trouxe um texto lindo da divíssima Lana Del Rey, que ela narra no clipe da música Ride. Vale a pena conferir, porque, além de uma cantora indie incrível, ela é uma verdadeira poetisa!


Eu estava no inverno da minha vida  e os homens que encontrei pelo caminho eram meu único verão. À noite eu dormia e tinha visões de mim mesma dançando, rindo e chorando com eles. Três anos consecutivos em uma infinita turnê mundial e minhas memórias deles foram as únicas coisas que me sustentaram, e meus únicos momentos felizes reais. Eu era uma cantora, não muito popular, que tinha o sonho de se tornar uma bela poetisa  mas uma série de eventos desafortunados destruiu esse sonho e o dividiu como um milhão de estrelas no céu noturno, para que eu fizesse pedidos a elas de novo e de novo  brilhantes e destruídas. Mas eu não me importei, porque sabia que ter tudo que você quer e depois perder isso tudo é saber o que a liberdade verdadeiramente é.
Quando as pessoas que eu conhecia descobriram o que eu fazia, como eu vivia  elas me perguntaram por quê. Mas não faz sentindo falar com pessoas que têm um lar, elas não têm ideia de como é procurar segurança em outras pessoas, procurar um lar onde você possa descansar a cabeça.
Sempre fui uma menina incomum, minha mãe me disse que eu tinha alma de camaleão. Nada de uma bússola moral apontando para o norte, nada de personalidade fixa. Apenas uma determinação interna que era tão grande e oscilante quanto o oceano. E se eu dissesse que não planejava as coisas desse jeito, estaria mentindo, porque eu nasci para ser a outra mulher. Eu não pertencia a ninguém, pertencia a todo mundo, não tinha nada  que queria tudo com o fogo de cada experiência e uma obsessão por liberdade que me assustava tanto a ponto de nem conseguir falar sobre isso, e me empurrou para um ponto nômade de loucura que tanto me deslumbrava quanto me deixava tonta.
Toda noite eu costumava rezar para achar pessoas como eu  e finalmente achei, na estrada. Não tínhamos nada a perder, nada a ganhar, nada que desejássemos mais  exceto transformar nossas vidas em uma obra de arte. Viva rápido. Morra jovem. Seja selvagem. E se divirta.
Eu acredito no que a América costumava ser. Eu acredito na pessoa que quero me tornar, acredito na liberdade da estrada. E meu lema é o mesmo de sempre: eu acredito na gentileza dos estranhos. E quando estou em guerra comigo mesma, eu ando por aí. Só ando por aí.
Quem é você? Você está em contato com todas as suas fantasias mais obscuras? Você criou uma vida para você mesmo na qual é feliz para experimentá-las? Eu criei. Eu sou louca pra cacete. Mas eu sou livre.
— Lana Del Rey

03 janeiro 2013

BR (Original) - Capítulo 1


Capítulo 1: Roma – Milão

A selva é a sua cabeça
Ela não pode mandar no seu coração
Um sentimento é muito mais forte que
Um pensamento
(U2 – Vertigo)

Roma, Itália – Locanda Colosseo
10h33min

            A capital italiana estava lotada. E quente – tremendamente quente. O número da unidade acabava de pular de 4 para 5 no painel eletrônico que monitorava o clima da cidade, e Brisa sorriu ao limpar um filete de suor que começava a escorrer em sua nuca. Los Angeles costumava ser quente durante o verão, mas nada que se pudesse comparar a Roma e seus recentes 35ºC.
            – Socorro, amiga! Quero voltar pra LA! – Lindsay e seu costumeiro drama começaram a se apresentar enquanto ela retornava ao quarto, começando a revirar sua mala.
            – Tem certeza? – Brisa sorriu maliciosamente, olhando rapidamente para a amiga ao colocar um fio de cabelo atrás da orelha. – Não foi você que estava louca pra conhecer alguns italianos?
            – Tudo bem, Roma é incrível! – ela disse animadamente, jogando as mãos para cima e se esparramando na cama. – Você viu aquele moreno gatíssimo que ajudou a trazer nossas malas? E ele me desejou boa estadia no hotel! Com certeza eu terei uma boa estadia se encontrá-lo mais tarde...
            – Céus, Lindsay, não estamos na cidade há nem duas horas e você já quer dormir com o primeiro europeu que aparece? – Brisa riu, estreitando os olhos, ainda debruçada no parapeito da varanda, tentando admirar cada traço do Coliseu, ao longe.
            – Não é todo dia que encontramos com um italiano de tirar o fôlego em plena Itália! Mas já que homens não fazem meu tipo, você bem que poderia ter uma boa estadia com ele... – murmurou toda sensual, jogando um travesseiro nas costas de Brisa. – E olhe pra mim enquanto eu falo com você, sua bitch!
            – Adoro você e seus doces apelidos, mas deixe de ser pervertida pelo menos uma vez na vida! – ela falou, pegando o travesseiro e o acertando no nariz arrebitado e convencido da loura, retornando ao quarto. Ambas riram antes de Brisa ser puxada para o lado da amiga, na enorme cama.
            – Não posso prometer isso, nasci assim... – continuou rindo, cheia de segundas intenções – Mas eu prometo que vamos fazer dessa viagem a melhor de nossas vidas, baby girl! – Lindsay exclamou, beijando uma das bochechas da morena.
            – Se eu estiver ao seu lado, com certeza, loura psicótica!
            – Já falei que loura psicótica é a sua avó – grunhiu, mostrando a língua ao levantar-se num salto – Vamos nos trocar? Preciso arrasar no look e parecer uma perua mafiosa!
            – Hm, está incorporando mesmo o estilo de vida italiano... Se você quiser estrelar O Poderoso Chefão, é claro! – ela riu, rolando na cama para avistar a criatura de mechas platinadas revirando uma das malas.
            Ela apenas recebeu um daqueles famosos olhares de “está brincando com a minha cara, bitch?”, o que a fez rir ainda mais.
            – Pulp Fiction então?
            – Vai se danar, Brisa Hewis! E eu sou muito mais tudo de bom que a Uma Thurman naquele filme! Se eu tivesse esse meu corpinho em 1994 ao invés de ser uma baby superfofa, o Tarantino ia implorar pra eu interpretar Mia Wallace.
            – Aham, sem dúvida alguma...
            – E então a Uma Thurman não faria tanto sucesso e eu seria cotada pra todos os filmes no lugar dela, viraria a queridinha da América, seria indicada ao Oscar em 95, ganharia um Globo de Ouro em 2002, e a atriz Uma Thurman jamais existiria!
            – Ai, Lind, às vezes eu tenho medo de você – A morena meneou o cabeça, rindo, perguntando-se que droga Lindsay havia tomado dessa vez.
             – A Uma Thurman é tão foda, não é? E ela se parece comigo, somos lindas e louras de olhos azuis. Seria tão divo se eu também fosse famosa e fôssemos BFFs. – É, com certeza a droga que ela tomou não foi a do juízo perfeito já que a loura nunca parecia estar sóbria, mesmo se estivesse!
            E era isso uma das coisas que Brisa mais gostava em sua amiga, seu modo acriançado de ver o mundo, mesmo que meio louquinho às vezes. Lindsay era a diversão em pessoa – adorava tomar todas, divertir-se em boas festas regadas a muita vodca, e provocar os garotos que davam em cima dela, já ela gostava das garotas. A loura assanhada e seu jeito feliz contagiavam qualquer um.
            – Vamos, B, levante essa bunda de J-Lo da cama e me ajude a montar meu look!
            – Você sabe que não pode entrar de roupa curta e decotada nas catedrais, né? – Brisa riu, vendo a amiga escolher seu famoso conjuntinho sou-uma-turista-solteira-procurando-por-diversão; leia-se: short jeans com a estampa da bandeira dos Estados Unidos e uma regata escrita “I love Italy”. Totalmente original.
            – Poxa, justo agora que eu tinha desistido da minha fantasia de mafiosa pra usar algo mais casual... – Soltou um muxoxo, repuxando os lábios rosados e finos num beicinho manhoso.

Roma, Itália – Piazza del Colosseo
18h21min

            Uma hora perdida, dois italianos esquisitões que ofereceram carona, três mochileiros mexicanos bonitões e oito orações mentais de que o Papa aparecesse para tirá-las daquela situação, até que, finalmente, as amigas conseguiram retornar ao ponto de partida e visitar o Coliseu.
            – Não acredito que você nunca toma jeito nessa vida! – Brisa ralhou com a amiga, formando uma concha com a mão para tapar os olhos do sol. Já seria noite se comparado à metade do mundo, mas os verões na Itália costumavam ver o dia cair apenas por volta das 21 horas.
            – Como assim eu nunca tomo jeito? – ela perguntou incrédula, ainda mancando por entre as ruas de pedra.
– Lindsay, você armou o maior berreiro porque o seu salto quebrou no meio da Basílica de São Pedro. – A garota de cabelos castanhos claros, agora avermelhados por conta da luz do sol, respondeu como se fosse óbvio.
– Foi um mico, não foi? – Sua risada escapou no meio da frase enquanto ela cobria os olhos de vergonha, fazendo Brisa soltar a gargalhada que ela tentava segurar. – Espero que Maria tenha me perdoado.
– Não acredito que seu salto quebrou na frente da obra de Michelangelo! Todo mundo sério e admirando a escultura da Virgem segurando o corpo morto de Jesus e, bum, sua bunda espatifa no chão! – Brisa ria ao se lembrar da cara da amiga. Foi o melhor tombo da loura que ela já tinha visto.
– E eu achando que iria me comover vendo La Piet pessoalmente, ao invés dos slides das aulas de Renascimento... E minha única recordação será o tombo e a minha Prada arruinada! – ela choramingou, não sabendo se ria ou chorava diante da situação – E do jeito que aqueles turistas eram doidos, devem ter colocado um vídeo no YouTube pro mundo inteiro rir do meu mico em escala global!
Brisa passou o braço ao redor dos ombros magros da amiga enquanto caminhavam rumo à Praça do Coliseu, rindo de tanto melodrama e desespero juntos.
O movimento estava calmo por ali, a luz do sol ainda despontando, algumas pessoas que passavam por perto em suas motocicletas ou naqueles fuscas antigos e de cores chamativas. Era tudo lindo por ali, sem contar nos prédios antigos e em tantas obras de arte que Roma carregava a céu aberto.
– Pense pelo lado positivo, se você realmente estiver no YouTube quem sabe o Tarantino não veja o talento da minha loura desastrada e a chame pro seu próximo grande filme?
– Seria incrível, não seria? – Os grandes e redondos olhos azuis brilharam, e Lindsay soltou-se da amiga e ficou quicando de um lado para o outro em seu vestido florido. – Se a minha carreira como futura professora de História da Arte falhar, eu bem que poderia ser uma atriz de sucesso... Eu iria arrasar!
– Com certeza iria!
– E você, hein? Nem pra ter vestido uma roupa decente! Quando eu ficar famosa e a Ellen Degeneres fizer uma entrevista comigo e mostrar esse vídeo, vão me ver toda diva no meu vestido Dolce & Gabbana e você assim... – ela meneou a cabeça, parando no meio da rua para olhar a amiga de cima a baixo.
Jeans e camiseta são muito mais confortáveis. – Brisa se defendeu, olhando sua roupa com a estampa do álbum “The Dark Side of The Moon”, do Pink Floyd, com um nó na barra pra diminuir o tamanho enorme. Logo voltou a caminhar, avistando o Coliseu já de pertinho. – Ainda mais essa camiseta! Jared não me deixou trazê-la pra viagem, então eu roubei do armário dele minutos antes de sairmos de Los Angeles! – Confessou rindo, fazendo Lindsay acompanhá-la.
– Quero ver a cara dele quando souber!
– O Alexander me deu cobertura, mas Jared já descobriu! Recebi uma mensagem de texto agorinha dizendo que, quando eu voltar pra casa, terei uma surpresinha! – Riu ainda mais.
– Será que ele vai vestir o cachorro dele com um dos seus biquínis de novo?
– Não... Meu irmão vai planejar algo pior... Principalmente quando descobrir que eu peguei outras três camisetas dele!
As duas riram, deliciando-se da felicidade de se conhecerem há tanto tempo. Lindsay era, sem sombra de dúvidas, sua melhor e mais fiel amiga – que poderia dizer o mesmo de Brisa. Elas se conheceram no colegial, numa festa do capitão do time de futebol americano – diga-se de passagem, um tapado –, quando certa loura apareceu toda bêbada na frente da morena, dizendo que tinha acabado de terminar com sua namorada quando decidiu afogar as mágoas.
Resultado: Brisa a chamou de louca e Lindsay começou a chorar, mas depois que ela tropeçou e caiu na piscina, B teve que levar a maluca para casa, até que ambas concordaram que nenhuma delas tinha saco para curtir aquele tipo de festa. E as duas passaram o restante da noite assistindo Supernatural, com uma pizza e duas cervejas.
– Ah, existe coisa mais linda que o Coliseu? – ela ouviu um suspiro escapar dos lábios de Lindsay, ambas paradas enquanto babavam em frente ao monumento.
– É perfeito, não é? Parece que voltamos à época do Império Romano.
– Só falta o Russell Crowe aparecer e dizer que vai ser o meu gladiador! – Lindsay riu, olhando pra amiga com um sorriso sapeca.
– Tem certeza que você é lésbica? – ela debochou, aproximando-se da entrada do anfiteatro enquanto admirava cada cantinho.
– Para o Russell eu faria uma exceção... E para o Hugh Jackman, Bradley Cooper e aquele gatinho que canta “But tonight I'm loving you”... – A loura riu, cantarolando ao final da frase.
– Enrique Iglesias? – Brisa questionou, olhando para a amiga com uma das sobrancelhas arqueadas. – É, esse eu também pegava. – concordou; ambas rindo.
– B, eu vou passar bem rápido no hotel e depois encontro você lá dentro do Coliseu, ok? – Lindsay prometeu enquanto ela e a amiga se aproximavam da entrada.
– Por que, sua louca? Eles vão fechar daqui a pouco!
– Eu não posso entrar pela primeira vez no Coliseu com um sapato com salto e outro não, né? – Esclareceu com uma careta, apontando para o Peep Toe vermelho.
– Tudo bem, mas não demora! – A morena pediu com uma carranca, recebendo um beijinho na bochecha antes de ver a baixinha correr até o hotel que ficava a alguns minutos dali.
Depois de entregar seu bilhete, Brisa pôde, enfim, desfrutar da história viva que guardava cada canto do imenso Anfiteatro Flaviano. Realmente de um tamanho colossal, fazendo jus à própria origem de seu nome.
Poucos turistas circulavam por ali devido ao horário, podendo oferecer a chance daquela jovem escritora de Los Angeles de se sentir maravilhada pela dimensão daquela obra. Visitar o Fórum Romano, observar as belas catedrais do Vaticano e admirar as obras de Michelangelo na Capela Sistina não possuíam a metade da magia que exalava pelo Coliseu. Talvez pelo fato de ser uma amante da História Antiga, talvez pelo fato de ser uma simples estudante de Literatura Inglesa que sempre sonhou em pisar num lugar tão utilizado por tantos escritores.
Brisa estava embevecida ao olhar aquelas paredes de pedra que a cercavam, mas ao avistar a arena, ela não sabia nem o que se passava por sua mente. Era como se ela pudesse ver os gladiadores lutando por suas vidas, batalhando com suas espadas enquanto jorravam sangue de suas entranhas. Ela quase podia ver os milhares de cidadãos romanos vibrando nas arquibancadas e o imperador em seu lugar especial, ao lado de sua esposa, aguardando o momento em que pudesse demonstrar sua decisão final: matar ou não matar o gladiador derrotado.
Obviamente ela sabia que todo aquele show não bastava de uma distração para o povo. A morena lembrava-se muito bem de estudar a Política do Pão e Circo que os imperadores propunham para evitar rebeliões das classes mais baixas – coisa não muito diferente do século XXI –, mas estar ali e imaginando todas aquelas cenas, fazia com que ela se sentisse importante. E quando o sol adentrou a arena e iluminou Brisa, ela se experimentou como parte da própria história.
No entanto, algo chamou sua atenção. Um baixo clic soou ao seu lado esquerdo e, ao semicerrar os olhos para enxergar melhor, ela avistou um belo garoto. Garoto não, um homem.
Você vem sempre aqui? – ele puxou assunto com um sorriso de lado, segurando uma máquina fotográfica profissional. Ambos riram da cantada terrível. – Tudo bem, eu sou péssimo com cantadas e garotas bonitas. Só achei indispensável ter uma paisagem maravilhosa como essa e, quando digo paisagem, eu me refiro a você.
Brisa soltou outra risada diante da cara de pau do rapaz, mas ela não poderia negar que o sotaque britânico, em cada uma de suas palavras, era de derrubar calcinhas.
– Você é sempre desequilibrado assim com todas as garotas que conhece? – ela murmurou sarcástica, mal contendo o riso, enquanto o via se aproximar.
 – Só com as que andam por aí de All Star e camisetas do Pink Floyd. – respondeu com um sorriso divertido, embora levemente tímido. E a morena ficou parcialmente entorpecida com os olhos brilhantes, esquecendo-se do comentário irônico que estava prestes a revidar.
O azul nas íris do jovem continha um tom esverdeado que deixava seu olhar hipnotizante, e Brisa perguntou-se qual deveria ser a sua cor sem o contraste da luz do sol. Ele era realmente lindo, mas não daquele tipo de beleza que você quase hiperventila e depois solta um suspiro pré-apaixonado – sua beleza era daquelas que você tem vontade de ficar observando pra ver se tem alguma outra coisa que o faça parecer ainda mais encantador.
Os olhos pequenos, o nariz simétrico e a boca rosada em uma linha pareciam perfeitamente naturais entre as maçãs do rosto e a mandíbula marcada, cobertas por pequenos pêlos que começavam a despontar em uma barba por fazer. A pele pálida, levemente avermelhada pelo dia, deixava-o particularmente tentador; e os cabelos de um castanho bem claro eram a peça final, no famoso estilo bagunçado de qualquer jovem britânico.
Brisa surpreendeu-se ao ver que agora, pertinho dela, o rapaz era bem mais alto que seus míseros 1,65 metros. Entretanto, olhou bem séria para ele.
Hey, por acaso você não tem um mapa em mãos? – ela perguntou, o que o fez encará-la com surpresa.
– Não, acho que não. – Tateou os bolsos da calça rapidamente, franzindo o cenho antes de voltar a fitar os olhos verdes da garota. – Por quê?
– Ah, porque eu acabei de me perder no brilho dos seus olhos.
Ele olhou incrédulo para a morena e os dois caíram na gargalhada. A risada do jovem era deliciosamente agradável misturada à de Brisa, enquanto ele ainda se recuperava do humor nada convencional daquela pequena estranha. Ela era diferente de todas as mulheres que havia conhecido, provavelmente por seu jeito sincero e espontâneo de ser – coisa que ele já poderia afirmar mesmo com aqueles poucos minutos estando ao seu lado.
Ambos olharam-se amistosamente, tentando ler a mente um do outro enquanto mordiam os lábios para conter os risos. O clima instalado era incrivelmente ameno e sutil, e uma guerra poderia ser estourada há alguns metros dali que nenhum dos dois sequer notaria. Era como se uma bolha os envolvesse.
E, naquele instante, o jovem se sentiu completamente perdido por entre os olhos de Brisa. Eles possuíam um traço felino que o intrigou, como se fossem os olhos de um puma, com aquele tom de verde claro com pequenos salpicos cor de mel ao redor da pupila. Suas feições tão delicadas davam-lhe um ar de menina, contrapondo-se aos olhos tão maduros; os lábios cheios e avermelhados e a pele alva e impecável eram praticamente um convite ao pecado. Ela deveria ser a garota mais linda que já havia visto.
– Sua biiiitch, você não vai acreditar no que eu acabei de ver! – Uma Lindsay louca chegou correndo toda esbaforida, fazendo Brisa dar um pulo de susto.  – Você precisa ver também e dizer que eu não estou sonhando!
– O que aconteceu? – A morena questionou, em um misto de surpresa e frustração, sentindo os olhos azuis do belo rapaz, banhados de curiosidade, perfurando as duas.
– Você tem ver com os próprios olhos, né?
E a loura impaciente e agitada simplesmente arrastou a amiga pra fora do Coliseu, sequer dando a possibilidade de uma apresentação entre Brisa e o britânico do sotaque de derrubar calcinhas.
– Ele é a coisa mais linda que eu já vi, amiga! Pode acrescentá-lo a minha lista, logo depois do Russell Crowe e Bradley Cooper! – A loura repuxou os lábios finos em um sorriso travesso, os grandes olhos azuis brilhando.
– Como é? Ele? Lindsay Hart, não me diga que você aprontou esse drama por causa de um homem! – ela olhou feio pra amiga, já do lado de fora do imenso anfiteatro.
– É aí que surge a mágica, baby! Ele não é apenas um homem, é um deus grego, tipo um semideus dos livros do Percy Jackson! – Suspirou, olhando para os lados em busca do dito cujo. – E falando em deus, o que era aquilo dentro do Coliseu?
– Pois é, estaríamos no maior papo agora se você não tivesse empatado tudo. – A morena ergueu a sobrancelha para complementar seu comentário irônico, fazendo a amiga encará-la no mesmo instante, toda curiosa.
– Brisa, sua safada, você estava dando em cima dele?
Não exatamente... – Inclinou a cabeça, pensando em algo que definiria o momento de minutos antes.
– É claro que estava! – Lindsay soltou uma gargalhada gostosa, batendo palmas enquanto quicava. – E vocês trocaram telefone? Marcaram de se encontrar hoje à noite pra darem uns amassos? Aliás, qual o nome dele? Ele tem cara de britânico, todo fofo e branquinho daquele jeito... Ele é britânico?
– A gente tinha acabado de se conhecer, nem nos apresentamos. – ela riu, incapaz de ficar furiosa com a amiga por muito tempo.
– Como assim? – A jovem parou no mesmo instante, encarando a garota de cabelos escuros como se ela tivesse três cabeças. – Você é muito inútil mesmo, Hewis! Vamos voltar lá agora e resolver essa situação!
– Ficou louca? – Brisa arregalou os olhos, sendo rebocada novamente pela loura só que, dessa vez, para dentro do Coliseu. – Eu vou voltar lá e dizer o quê?
– Você pode dizer: “Oi, sou uma mochileira californiana fodidamente transável que está sem namorado há um bom tempo! Vamos sair essa noite?”
– Lindsay, você surtou! – ela deu uma risada histérica, sentindo as borboletas no estômago se revirarem de ansiedade e medo, ao passo em que se aproximava do lugar que encontrou o rapaz.
No entanto, ele não estava mais ali. Alguns poucos turistas circulavam pelo local, tirando fotos e tagarelando. As duas pararam, olhando uma para a cara da outra em uma conversa silenciosa.
Puta que pariu, eu perdi de vista um italiano escândalo que encontrei, e agora o seu britânico resolveu fugir também. O que tem de errado com esses homens europeus? – A loura colocou a mão na cintura em incredulidade, fazendo Brisa soltar um suspiro aliviado junto de uma risada trêmula.

Roma, Itália – Trattoria al Moro
20h26min

            “Certa vez eu ouvi dizer que as pessoas felizes são as aquelas que não sonham demais, que não idealizam demais, que não esperam por mais. O motivo provavelmente seria porque tais pessoas jamais se decepcionariam com o mundo ao seu redor e suas expectativas frustradas. Isso é óbvio; elas não teriam expectativas. Mas como viver em um mundo assim? Um mundo sem sonhos, sem esperanças, sem qualquer desejo de que tudo seja um pouco melhor? O ser humano vive de expectativas, e o fato de elas serem frustradas é o que o torna forte o bastante para continuar sonhando cada vez mais alto. O grande problema da humanidade é não separar os sonhos das metas.
Sonhar alto não é pecado; o pecado estará dentro da sua alma quando você chegar a um momento de sua vida e perceber que seus sonhos nunca aconteceram. E a queda pode ser tão grande a ponto de tirar todas as suas expectativas restantes.”.

            – Ai, esse é o melhor restaurante de Roma! – Lindsay falou com a boca cheia de espaguete, ganhando um sorriso de Brisa, que escrevia em seu inseparável bloco de notas.
            – Esse é o primeiro restaurante que viemos em Roma. – ela corrigiu com uma risadinha, parando por um instante ao fitar a amiga – Que palavra rima com “amadurecer”?
            – Sei lá... – deu de ombros, limpando os lábios com um guardanapo enquanto deliberava – “Beber, doer, emagrecer, derreter, estremecer”... – murmurou a última palavra com seu costumeiro olhar de pervertida.
            – Lindsay, o que eu faço com você? – A morena riu, meneando a cabeça em descrença.
            – Tudo bem, que tal... “crer”? “Florescer”?
            – Boa! – ela quase gritou de animação, voltando a rabiscar em seu bloco enquanto sua mente fervilhava em inspiração.

“Sonhos são imprescindíveis, mas as pessoas precisam criar meios de torná-los realidade. Aí sim esse ser humano será pleno de mente e alma, irá desfrutar a vida em toda sua essência. E, um dia, ele terá certeza de que viveu e foi feliz com suas escolhas, pois suas expectativas frustradas o fizeram amadurecer, suas expectativas alcançadas o fizeram crer, mas suas expectativas superadas – ah, essas sim! – o fizeram florescer.”.

– Essa viagem está me fazendo tão bem. – Brisa suspirou, guardando o pequeno caderno e a caneta em sua bolsa, voltando sua atenção ao delicioso carneiro acompanhado das batatas cozidas em seu prato.
– Se isso tiver alguma relação com certo homem inglês que é péssimo em cantadas, mas que é um gato... – A loura mexeu sugestivamente as sobrancelhas, esperando arrancar algum detalhe extra da história.
– Eu já disse, nós nem chegamos a nos conhecer... Foi tudo tão rápido.
– Eu me recuso a aceitar que vocês só trocaram meia dúzia de palavras! – ela repuxou os lábios em um beicinho inconformado, enrolando o macarrão em seu garfo.
– Idem – A bela jovem concordou em um tom baixo, duvidando que a amiga pudesse ter lhe ouvido.
Seus olhos pensantes vaguearam pela trattoria calma e acolhedora, tentando absorver o clima do ambiente para si mesma enquanto sentia sua mente voltada a um belo par de olhos azuis e cabelos revoltos. O rapaz indubitavelmente chamara sua atenção, mas a probabilidade de encontrá-lo novamente em Roma, em meio a tantos cidadãos e turistas, era baixíssima – principalmente com sua passagem de trem a Milão marcada para dali poucos dias. E daí em diante seriam inúmeras outras cidades europeias em seu roteiro, e não um charmoso fotógrafo a que pusera os olhos.

Roma, Itália – Piazza di Trevi
20h49min

Após o proveitoso jantar ao som de alguma música de Andrea Bocelli, as duas caminharam até a Fontana di Trevi, praticamente atrás do restaurante. O sol se punha preguiçosamente em algum lugar do horizonte, o céu de um azul marinho com rajadas rosa e laranja em um ponto e outro.
            Algumas pessoas se espreitavam por entre a extensa bancada que dividia a enorme fonte da praça, a qual era cortada por três vias – tre vie. As águas cristalinas, que lembravam o mar caribenho, antecipavam a belíssima escultura barroca aninhada em frente a um palácio, possuindo a estátua de Netuno – o deus dos mares ou Poseidon, na mitologia grega.
            O barulho nostálgico das águas caindo fez Brisa fechar os olhos e sentir o sopro do vento movimentar seus cabelos, perdida em uma sensação de estar em casa. Era como se ali fosse o pontinho de Roma que exalava romance, sem toda a grandiosidade das arquiteturas comuns da cidade. Voltando a fitar aquela maravilha esculpida em pedras, ela pôde sentir a vivacidade do monumento, como se Netuno rompesse a paisagem em sua carruagem puxada por cavalos-marinhos de uma maneira realmente teatral.
As luzes douradas acesas em pontos estratégicos da escultura davam a tudo um toque ainda mais encantador, como se as estátuas fossem banhadas a ouro e platina. Na verdade, encantador era uma palavra que não supria a verdadeira dimensão daquele instante. A beleza era indefinível.
– Vamos jogar nossas moedas na fonte? – Brisa perguntou a Lindsay, alguns segundos depois, enquanto a ouvia sussurrar “amiga, me belisca”, repetidas vezes, completamente hipnotizada.
– E você acha mesmo que eu perderia essa chance? – rebateu com um sorriso que espelhava o da amiga, ao passo em que ambas se aproximavam das águas.
A loura foi a primeira a jogar uma única moeda na fonte, garantindo seu retorno à Cidade Eterna assim como dizia a tradição. Brisa, no entanto, decidiu seguir um mito diferente, torcendo pelas segundas tradições serem tão certas quanto as primeiras.
– Que Roma me traga um grande amor. – sussurrou para si mesma, observando suas duas moedas mergulharem nas águas cristalinas.
Um par de borbulhares ao lado de seus centavos afundando chamou a atenção da jovem, e, ao procurar a pessoa que também esperava por sua sorte, ela se espantou com um par de revoltos cabelos castanhos claros. Apesar de estar a uma dúzia de turistas, a pele alva e os olhos azulados, compenetrados na grandiosidade da fontana, eram-lhe inconfundíveis.
Brisa teve que se lembrar de como respirar.
Duas moedas, Hewis? Hmmm... Tem alguém querendo arranjar um bofe magia na capital italiana... – Lindsay tirou sarro com seu sorriso de menina sapeca, fazendo a amiga desviar os olhos do rapaz para encará-la preguiçosamente.
– Você é tão cheia de segundas inten...
A morena, porém, não finalizou sua frase repleta de ironia. Ao retornar seu olhar para o charmoso britânico, ele não estava mais ali. No lugar que ele estava, havia apenas uma garota tentando fotografar a paisagem entre dois outros turistas.
Brisa suspirou de frustração, questionando se sua mente estava planejando algum complô contra ela mesma. Ou se seu coração estava achando que poderia se apaixonar facilmente por alguém que ela mal vira. Talvez eu tenha inventado essa merda toda, pensou, ignorando as brincadeiras e os olhares sugestivos da pessoinha irritante que chamava de amiga.

Eu estou num lugar chamado vertigem
É tudo o que eu desejava não saber
A não ser que você me dê algo que eu possa sentir
(U2 – Vertigo)

BR (original) - Capítulo 1


Capítulo 1: Roma

A selva é a sua cabeça
Ela não pode mandar no seu coração
Um sentimento é muito mais forte que
Um pensamento
(U2 – Vertigo)

Roma, Itália – Locanda Colosseo
10h33min

            A capital italiana estava lotada. E quente – tremendamente quente. O número da unidade acabava de pular de 4 para 5 no painel eletrônico que monitorava o clima da cidade, e Brisa sorriu ao limpar um filete de suor que começava a escorrer em sua nuca. Los Angeles costumava ser quente durante o verão, mas nada que se pudesse comparar a Roma e seus recentes 35ºC.
            – Socorro, amiga! Quero voltar pra LA! – Lindsay e seu costumeiro drama começaram a se apresentar enquanto ela retornava ao quarto, começando a revirar sua mala.
            – Tem certeza? – Brisa sorriu maliciosamente, olhando rapidamente para a amiga ao colocar um fio de cabelo atrás da orelha. – Não foi você que estava louca pra conhecer alguns italianos?
            – Tudo bem, Roma é incrível! – ela disse animadamente, jogando as mãos para cima e se esparramando na cama. – Você viu aquele moreno gatíssimo que ajudou a trazer nossas malas? E ele me desejou boa estadia no hotel! Com certeza eu terei uma boa estadia se encontrá-lo mais tarde...
            – Céus, Lindsay, não estamos na cidade há nem duas horas e você já quer dormir com o primeiro europeu que aparece? – Brisa riu, estreitando os olhos, ainda debruçada no parapeito da varanda, tentando admirar cada traço do Coliseu, ao longe.
            – Não é todo dia que encontramos com um italiano de tirar o fôlego em plena Itália! Mas já que homens não fazem meu tipo, você bem que poderia ter uma boa estadia com ele... – murmurou toda sensual, jogando um travesseiro nas costas de Brisa. – E olhe pra mim enquanto eu falo com você, sua bitch!
            – Adoro você e seus doces apelidos, mas deixe de ser pervertida pelo menos uma vez na vida! – ela falou, pegando o travesseiro e o acertando no nariz arrebitado e convencido da loura, retornando ao quarto. Ambas riram antes de Brisa ser puxada para o lado da amiga, na enorme cama.
            – Não posso prometer isso, nasci assim... – continuou rindo, cheia de segundas intenções – Mas eu prometo que vamos fazer dessa viagem a melhor de nossas vidas, baby girl! – Lindsay exclamou, beijando uma das bochechas da morena.
            – Se eu estiver ao seu lado, com certeza, loura psicótica!
            – Já falei que loura psicótica é a sua avó – grunhiu, mostrando a língua ao levantar-se num salto – Vamos nos trocar? Preciso arrasar no look e parecer uma perua mafiosa!
            – Hm, está incorporando mesmo o estilo de vida italiano... Se você quiser estrelar O Poderoso Chefão, é claro! – ela riu, rolando na cama para avistar a criatura de mechas platinadas revirando uma das malas.
            Ela apenas recebeu um daqueles famosos olhares de “está brincando com a minha cara, bitch?”, o que a fez rir ainda mais.
            – Pulp Fiction então?
            – Vai se danar, Brisa Hewis! E eu sou muito mais tudo de bom que a Uma Thurman naquele filme! Se eu tivesse esse meu corpinho em 1994 ao invés de ser uma baby superfofa, o Tarantino ia implorar pra eu interpretar Mia Wallace.
            – Aham, sem dúvida alguma...
            – E então a Uma Thurman não faria tanto sucesso e eu seria cotada pra todos os filmes no lugar dela, viraria a queridinha da América, seria indicada ao Oscar em 95, ganharia um Globo de Ouro em 2002, e a atriz Uma Thurman jamais existiria!
            – Ai, Lind, às vezes eu tenho medo de você – A morena meneou o cabeça, rindo, perguntando-se que droga Lindsay havia tomado dessa vez.
             – A Uma Thurman é tão foda, não é? E ela se parece comigo, somos lindas e louras de olhos azuis. Seria tão divo se eu também fosse famosa e fôssemos BFFs. – É, com certeza a droga que ela tomou não foi a do juízo perfeito já que a loura nunca parecia estar sóbria, mesmo se estivesse!
            E era isso uma das coisas que Brisa mais gostava em sua amiga, seu modo acriançado de ver o mundo, mesmo que meio louquinho às vezes. Lindsay era a diversão em pessoa – adorava tomar todas, divertir-se em boas festas regadas a muita vodca, e provocar os garotos que davam em cima dela, já ela gostava das garotas. A loura assanhada e seu jeito feliz contagiavam qualquer um.
            – Vamos, B, levante essa bunda de J-Lo da cama e me ajude a montar meu look!
            – Você sabe que não pode entrar de roupa curta e decotada nas catedrais, né? – Brisa riu, vendo a amiga escolher seu famoso conjuntinho sou-uma-turista-solteira-procurando-por-diversão; leia-se: short jeans com a estampa da bandeira dos Estados Unidos e uma regata escrita “I love Italy”. Totalmente original.
            – Poxa, justo agora que eu tinha desistido da minha fantasia de mafiosa pra usar algo mais casual... – Soltou um muxoxo, repuxando os lábios rosados e finos num beicinho manhoso.

Roma, Itália – Piazza del Colosseo
18h21min

            Uma hora perdida, dois italianos esquisitões que ofereceram carona, três mochileiros mexicanos bonitões e oito orações mentais de que o Papa aparecesse para tirá-las daquela situação, até que, finalmente, as amigas conseguiram retornar ao ponto de partida e visitar o Coliseu.
            – Não acredito que você nunca toma jeito nessa vida! – Brisa ralhou com a amiga, formando uma concha com a mão para tapar os olhos do sol. Já seria noite se comparado à metade do mundo, mas os verões na Itália costumavam ver o dia cair apenas por volta das 21 horas.
            – Como assim eu nunca tomo jeito? – ela perguntou incrédula, ainda mancando por entre as ruas de pedra.
– Lindsay, você armou o maior berreiro porque o seu salto quebrou no meio da Basílica de São Pedro. – A garota de cabelos castanhos claros, agora avermelhados por conta da luz do sol, respondeu como se fosse óbvio.
– Foi um mico, não foi? – Sua risada escapou no meio da frase enquanto ela cobria os olhos de vergonha, fazendo Brisa soltar a gargalhada que ela tentava segurar. – Espero que Maria tenha me perdoado.
– Não acredito que seu salto quebrou na frente da obra de Michelangelo! Todo mundo sério e admirando a escultura da Virgem segurando o corpo morto de Jesus e, bum, sua bunda espatifa no chão! – Brisa ria ao se lembrar da cara da amiga. Foi o melhor tombo da loura que ela já tinha visto.
– E eu achando que iria me comover vendo La Piet pessoalmente, ao invés dos slides das aulas de Renascimento... E minha única recordação será o tombo e a minha Prada arruinada! – ela choramingou, não sabendo se ria ou chorava diante da situação – E do jeito que aqueles turistas eram doidos, devem ter colocado um vídeo no YouTube pro mundo inteiro rir do meu mico em escala global!
Brisa passou o braço ao redor dos ombros magros da amiga enquanto caminhavam rumo à Praça do Coliseu, rindo de tanto melodrama e desespero juntos.
O movimento estava calmo por ali, a luz do sol ainda despontando, algumas pessoas que passavam por perto em suas motocicletas ou naqueles fuscas antigos e de cores chamativas. Era tudo lindo por ali, sem contar nos prédios antigos e em tantas obras de arte que Roma carregava a céu aberto.
– Pense pelo lado positivo, se você realmente estiver no YouTube quem sabe o Tarantino não veja o talento da minha loura desastrada e a chame pro seu próximo grande filme?
– Seria incrível, não seria? – Os grandes e redondos olhos azuis brilharam, e Lindsay soltou-se da amiga e ficou quicando de um lado para o outro em seu vestido florido. – Se a minha carreira como futura professora de História da Arte falhar, eu bem que poderia ser uma atriz de sucesso... Eu iria arrasar!
– Com certeza iria!
– E você, hein? Nem pra ter vestido uma roupa decente! Quando eu ficar famosa e a Ellen Degeneres fizer uma entrevista comigo e mostrar esse vídeo, vão me ver toda diva no meu vestido Dolce & Gabbana e você assim... – ela meneou a cabeça, parando no meio da rua para olhar a amiga de cima a baixo.
Jeans e camiseta são muito mais confortáveis. – Brisa se defendeu, olhando sua roupa com a estampa do álbum “The Dark Side of The Moon”, do Pink Floyd, com um nó na barra pra diminuir o tamanho enorme. Logo voltou a caminhar, avistando o Coliseu já de pertinho. – Ainda mais essa camiseta! Jared não me deixou trazê-la pra viagem, então eu roubei do armário dele minutos antes de sairmos de Los Angeles! – Confessou rindo, fazendo Lindsay acompanhá-la.
– Quero ver a cara dele quando souber!
– O Alexander me deu cobertura, mas Jared já descobriu! Recebi uma mensagem de texto agorinha dizendo que, quando eu voltar pra casa, terei uma surpresinha! – Riu ainda mais.
– Será que ele vai vestir o cachorro dele com um dos seus biquínis de novo?
– Não... Meu irmão vai planejar algo pior... Principalmente quando descobrir que eu peguei outras três camisetas dele!
As duas riram, deliciando-se da felicidade de se conhecerem há tanto tempo. Lindsay era, sem sombra de dúvidas, sua melhor e mais fiel amiga – que poderia dizer o mesmo de Brisa. Elas se conheceram no colegial, numa festa do capitão do time de futebol americano – diga-se de passagem, um tapado –, quando certa loura apareceu toda bêbada na frente da morena, dizendo que tinha acabado de terminar com sua namorada quando decidiu afogar as mágoas.
Resultado: Brisa a chamou de louca e Lindsay começou a chorar, mas depois que ela tropeçou e caiu na piscina, B teve que levar a maluca para casa, até que ambas concordaram que nenhuma delas tinha saco para curtir aquele tipo de festa. E as duas passaram o restante da noite assistindo Supernatural, com uma pizza e duas cervejas.
– Ah, existe coisa mais linda que o Coliseu? – ela ouviu um suspiro escapar dos lábios de Lindsay, ambas paradas enquanto babavam em frente ao monumento.
– É perfeito, não é? Parece que voltamos à época do Império Romano.
– Só falta o Russell Crowe aparecer e dizer que vai ser o meu gladiador! – Lindsay riu, olhando pra amiga com um sorriso sapeca.
– Tem certeza que você é lésbica? – ela debochou, aproximando-se da entrada do anfiteatro enquanto admirava cada cantinho.
– Para o Russell eu faria uma exceção... E para o Hugh Jackman, Bradley Cooper e aquele gatinho que canta “But tonight I'm loving you”... – A loura riu, cantarolando ao final da frase.
– Enrique Iglesias? – Brisa questionou, olhando para a amiga com uma das sobrancelhas arqueadas. – É, esse eu também pegava. – concordou; ambas rindo.
– B, eu vou passar bem rápido no hotel e depois encontro você lá dentro do Coliseu, ok? – Lindsay prometeu enquanto ela e a amiga se aproximavam da entrada.
– Por que, sua louca? Eles vão fechar daqui a pouco!
– Eu não posso entrar pela primeira vez no Coliseu com um sapato com salto e outro não, né? – Esclareceu com uma careta, apontando para o Peep Toe vermelho.
– Tudo bem, mas não demora! – A morena pediu com uma carranca, recebendo um beijinho na bochecha antes de ver a baixinha correr até o hotel que ficava a alguns minutos dali.
Depois de entregar seu bilhete, Brisa pôde, enfim, desfrutar da história viva que guardava cada canto do imenso Anfiteatro Flaviano. Realmente de um tamanho colossal, fazendo jus à própria origem de seu nome.
Poucos turistas circulavam por ali devido ao horário, podendo oferecer a chance daquela jovem escritora de Los Angeles de se sentir maravilhada pela dimensão daquela obra. Visitar o Fórum Romano, observar as belas catedrais do Vaticano e admirar as obras de Michelangelo na Capela Sistina não possuíam a metade da magia que exalava pelo Coliseu. Talvez pelo fato de ser uma amante da História Antiga, talvez pelo fato de ser uma simples estudante de Literatura Inglesa que sempre sonhou em pisar num lugar tão utilizado por tantos escritores.
Brisa estava embevecida ao olhar aquelas paredes de pedra que a cercavam, mas ao avistar a arena, ela não sabia nem o que se passava por sua mente. Era como se ela pudesse ver os gladiadores lutando por suas vidas, batalhando com suas espadas enquanto jorravam sangue de suas entranhas. Ela quase podia ver os milhares de cidadãos romanos vibrando nas arquibancadas e o imperador em seu lugar especial, ao lado de sua esposa, aguardando o momento em que pudesse demonstrar sua decisão final: matar ou não matar o gladiador derrotado.
Obviamente ela sabia que todo aquele show não bastava de uma distração para o povo. A morena lembrava-se muito bem de estudar a Política do Pão e Circo que os imperadores propunham para evitar rebeliões das classes mais baixas – coisa não muito diferente do século XXI –, mas estar ali e imaginando todas aquelas cenas, fazia com que ela se sentisse importante. E quando o sol adentrou a arena e iluminou Brisa, ela se experimentou como parte da própria história.
No entanto, algo chamou sua atenção. Um baixo clic soou ao seu lado esquerdo e, ao semicerrar os olhos para enxergar melhor, ela avistou um belo garoto. Garoto não, um homem.
Você vem sempre aqui? – ele puxou assunto com um sorriso de lado, segurando uma máquina fotográfica profissional. Ambos riram da cantada terrível. – Tudo bem, eu sou péssimo com cantadas e garotas bonitas. Só achei indispensável ter uma paisagem maravilhosa como essa e, quando digo paisagem, eu me refiro a você.
Brisa soltou outra risada diante da cara de pau do rapaz, mas ela não poderia negar que o sotaque britânico, em cada uma de suas palavras, era de derrubar calcinhas.
– Você é sempre desequilibrado assim com todas as garotas que conhece? – ela murmurou sarcástica, mal contendo o riso, enquanto o via se aproximar.
 – Só com as que andam por aí de All Star e camisetas do Pink Floyd. – respondeu com um sorriso divertido, embora levemente tímido. E a morena ficou parcialmente entorpecida com os olhos brilhantes, esquecendo-se do comentário irônico que estava prestes a revidar.
O azul nas íris do jovem continha um tom esverdeado que deixava seu olhar hipnotizante, e Brisa perguntou-se qual deveria ser a sua cor sem o contraste da luz do sol. Ele era realmente lindo, mas não daquele tipo de beleza que você quase hiperventila e depois solta um suspiro pré-apaixonado – sua beleza era daquelas que você tem vontade de ficar observando pra ver se tem alguma outra coisa que o faça parecer ainda mais encantador.
Os olhos pequenos, o nariz simétrico e a boca rosada em uma linha pareciam perfeitamente naturais entre as maçãs do rosto e a mandíbula marcada, cobertas por pequenos pêlos que começavam a despontar em uma barba por fazer. A pele pálida, levemente avermelhada pelo dia, deixava-o particularmente tentador; e os cabelos de um castanho bem claro eram a peça final, no famoso estilo bagunçado de qualquer jovem britânico.
Brisa surpreendeu-se ao ver que agora, pertinho dela, o rapaz era bem mais alto que seus míseros 1,65 metros. Entretanto, olhou bem séria para ele.
Hey, por acaso você não tem um mapa em mãos? – ela perguntou, o que o fez encará-la com surpresa.
– Não, acho que não. – Tateou os bolsos da calça rapidamente, franzindo o cenho antes de voltar a fitar os olhos verdes da garota. – Por quê?
– Ah, porque eu acabei de me perder no brilho dos seus olhos.
Ele olhou incrédulo para a morena e os dois caíram na gargalhada. A risada do jovem era deliciosamente agradável misturada à de Brisa, enquanto ele ainda se recuperava do humor nada convencional daquela pequena estranha. Ela era diferente de todas as mulheres que havia conhecido, provavelmente por seu jeito sincero e espontâneo de ser – coisa que ele já poderia afirmar mesmo com aqueles poucos minutos estando ao seu lado.
Ambos olharam-se amistosamente, tentando ler a mente um do outro enquanto mordiam os lábios para conter os risos. O clima instalado era incrivelmente ameno e sutil, e uma guerra poderia ser estourada há alguns metros dali que nenhum dos dois sequer notaria. Era como se uma bolha os envolvesse.
E, naquele instante, o jovem se sentiu completamente perdido por entre os olhos de Brisa. Eles possuíam um traço felino que o intrigou, como se fossem os olhos de um puma, com aquele tom de verde claro com pequenos salpicos cor de mel ao redor da pupila. Suas feições tão delicadas davam-lhe um ar de menina, contrapondo-se aos olhos tão maduros; os lábios cheios e avermelhados e a pele alva e impecável eram praticamente um convite ao pecado. Ela deveria ser a garota mais linda que já havia visto.
– Sua biiiitch, você não vai acreditar no que eu acabei de ver! – Uma Lindsay louca chegou correndo toda esbaforida, fazendo Brisa dar um pulo de susto.  – Você precisa ver também e dizer que eu não estou sonhando!
– O que aconteceu? – A morena questionou, em um misto de surpresa e frustração, sentindo os olhos azuis do belo rapaz, banhados de curiosidade, perfurando as duas.
– Você tem ver com os próprios olhos, né?
E a loura impaciente e agitada simplesmente arrastou a amiga pra fora do Coliseu, sequer dando a possibilidade de uma apresentação entre Brisa e o britânico do sotaque de derrubar calcinhas.
– Ele é a coisa mais linda que eu já vi, amiga! Pode acrescentá-lo a minha lista, logo depois do Russell Crowe e Bradley Cooper! – A loura repuxou os lábios finos em um sorriso travesso, os grandes olhos azuis brilhando.
– Como é? Ele? Lindsay Hart, não me diga que você aprontou esse drama por causa de um homem! – ela olhou feio pra amiga, já do lado de fora do imenso anfiteatro.
– É aí que surge a mágica, baby! Ele não é apenas um homem, é um deus grego, tipo um semideus dos livros do Percy Jackson! – Suspirou, olhando para os lados em busca do dito cujo. – E falando em deus, o que era aquilo dentro do Coliseu?
– Pois é, estaríamos no maior papo agora se você não tivesse empatado tudo. – A morena ergueu a sobrancelha para complementar seu comentário irônico, fazendo a amiga encará-la no mesmo instante, toda curiosa.
– Brisa, sua safada, você estava dando em cima dele?
Não exatamente... – Inclinou a cabeça, pensando em algo que definiria o momento de minutos antes.
– É claro que estava! – Lindsay soltou uma gargalhada gostosa, batendo palmas enquanto quicava. – E vocês trocaram telefone? Marcaram de se encontrar hoje à noite pra darem uns amassos? Aliás, qual o nome dele? Ele tem cara de britânico, todo fofo e branquinho daquele jeito... Ele é britânico?
– A gente tinha acabado de se conhecer, nem nos apresentamos. – ela riu, incapaz de ficar furiosa com a amiga por muito tempo.
– Como assim? – A jovem parou no mesmo instante, encarando a garota de cabelos escuros como se ela tivesse três cabeças. – Você é muito inútil mesmo, Hewis! Vamos voltar lá agora e resolver essa situação!
– Ficou louca? – Brisa arregalou os olhos, sendo rebocada novamente pela loura só que, dessa vez, para dentro do Coliseu. – Eu vou voltar lá e dizer o quê?
– Você pode dizer: “Oi, sou uma mochileira californiana fodidamente transável que está sem namorado há um bom tempo! Vamos sair essa noite?”
– Lindsay, você surtou! – ela deu uma risada histérica, sentindo as borboletas no estômago se revirarem de ansiedade e medo, ao passo em que se aproximava do lugar que encontrou o rapaz.
No entanto, ele não estava mais ali. Alguns poucos turistas circulavam pelo local, tirando fotos e tagarelando. As duas pararam, olhando uma para a cara da outra em uma conversa silenciosa.
Puta que pariu, eu perdi de vista um italiano escândalo que encontrei, e agora o seu britânico resolveu fugir também. O que tem de errado com esses homens europeus? – A loura colocou a mão na cintura em incredulidade, fazendo Brisa soltar um suspiro aliviado junto de uma risada trêmula.

Roma, Itália – Trattoria al Moro
20h26min

            “Certa vez eu ouvi dizer que as pessoas felizes são as aquelas que não sonham demais, que não idealizam demais, que não esperam por mais. O motivo provavelmente seria porque tais pessoas jamais se decepcionariam com o mundo ao seu redor e suas expectativas frustradas. Isso é óbvio; elas não teriam expectativas. Mas como viver em um mundo assim? Um mundo sem sonhos, sem esperanças, sem qualquer desejo de que tudo seja um pouco melhor? O ser humano vive de expectativas, e o fato de elas serem frustradas é o que o torna forte o bastante para continuar sonhando cada vez mais alto. O grande problema da humanidade é não separar os sonhos das metas.
Sonhar alto não é pecado; o pecado estará dentro da sua alma quando você chegar a um momento de sua vida e perceber que seus sonhos nunca aconteceram. E a queda pode ser tão grande a ponto de tirar todas as suas expectativas restantes.”.

            – Ai, esse é o melhor restaurante de Roma! – Lindsay falou com a boca cheia de espaguete, ganhando um sorriso de Brisa, que escrevia em seu inseparável bloco de notas.
            – Esse é o primeiro restaurante que viemos em Roma. – ela corrigiu com uma risadinha, parando por um instante ao fitar a amiga – Que palavra rima com “amadurecer”?
            – Sei lá... – deu de ombros, limpando os lábios com um guardanapo enquanto deliberava – “Beber, doer, emagrecer, derreter, estremecer”... – murmurou a última palavra com seu costumeiro olhar de pervertida.
            – Lindsay, o que eu faço com você? – A morena riu, meneando a cabeça em descrença.
            – Tudo bem, que tal... “crer”? “Florescer”?
            – Boa! – ela quase gritou de animação, voltando a rabiscar em seu bloco enquanto sua mente fervilhava em inspiração.

“Sonhos são imprescindíveis, mas as pessoas precisam criar meios de torná-los realidade. Aí sim esse ser humano será pleno de mente e alma, irá desfrutar a vida em toda sua essência. E, um dia, ele terá certeza de que viveu e foi feliz com suas escolhas, pois suas expectativas frustradas o fizeram amadurecer, suas expectativas alcançadas o fizeram crer, mas suas expectativas superadas – ah, essas sim! – o fizeram florescer.”.

– Essa viagem está me fazendo tão bem. – Brisa suspirou, guardando o pequeno caderno e a caneta em sua bolsa, voltando sua atenção ao delicioso carneiro acompanhado das batatas cozidas em seu prato.
– Se isso tiver alguma relação com certo homem inglês que é péssimo em cantadas, mas que é um gato... – A loura mexeu sugestivamente as sobrancelhas, esperando arrancar algum detalhe extra da história.
– Eu já disse, nós nem chegamos a nos conhecer... Foi tudo tão rápido.
– Eu me recuso a aceitar que vocês só trocaram meia dúzia de palavras! – ela repuxou os lábios em um beicinho inconformado, enrolando o macarrão em seu garfo.
– Idem – A bela jovem concordou em um tom baixo, duvidando que a amiga pudesse ter lhe ouvido.
Seus olhos pensantes vaguearam pela trattoria calma e acolhedora, tentando absorver o clima do ambiente para si mesma enquanto sentia sua mente voltada a um belo par de olhos azuis e cabelos revoltos. O rapaz indubitavelmente chamara sua atenção, mas a probabilidade de encontrá-lo novamente em Roma, em meio a tantos cidadãos e turistas, era baixíssima – principalmente com sua passagem de trem a Milão marcada para dali poucos dias. E daí em diante seriam inúmeras outras cidades europeias em seu roteiro, e não um charmoso fotógrafo a que pusera os olhos.

Roma, Itália – Piazza di Trevi
20h49min

Após o proveitoso jantar ao som de alguma música de Andrea Bocelli, as duas caminharam até a Fontana di Trevi, praticamente atrás do restaurante. O sol se punha preguiçosamente em algum lugar do horizonte, o céu de um azul marinho com rajadas rosa e laranja em um ponto e outro.
            Algumas pessoas se espreitavam por entre a extensa bancada que dividia a enorme fonte da praça, a qual era cortada por três vias – tre vie. As águas cristalinas, que lembravam o mar caribenho, antecipavam a belíssima escultura barroca aninhada em frente a um palácio, possuindo a estátua de Netuno – o deus dos mares ou Poseidon, na mitologia grega.
            O barulho nostálgico das águas caindo fez Brisa fechar os olhos e sentir o sopro do vento movimentar seus cabelos, perdida em uma sensação de estar em casa. Era como se ali fosse o pontinho de Roma que exalava romance, sem toda a grandiosidade das arquiteturas comuns da cidade. Voltando a fitar aquela maravilha esculpida em pedras, ela pôde sentir a vivacidade do monumento, como se Netuno rompesse a paisagem em sua carruagem puxada por cavalos-marinhos de uma maneira realmente teatral.
As luzes douradas acesas em pontos estratégicos da escultura davam a tudo um toque ainda mais encantador, como se as estátuas fossem banhadas a ouro e platina. Na verdade, encantador era uma palavra que não supria a verdadeira dimensão daquele instante. A beleza era indefinível.
– Vamos jogar nossas moedas na fonte? – Brisa perguntou a Lindsay, alguns segundos depois, enquanto a ouvia sussurrar “amiga, me belisca”, repetidas vezes, completamente hipnotizada.
– E você acha mesmo que eu perderia essa chance? – rebateu com um sorriso que espelhava o da amiga, ao passo em que ambas se aproximavam das águas.
A loura foi a primeira a jogar uma única moeda na fonte, garantindo seu retorno à Cidade Eterna assim como dizia a tradição. Brisa, no entanto, decidiu seguir um mito diferente, torcendo pelas segundas tradições serem tão certas quanto as primeiras.
– Que Roma me traga um grande amor. – sussurrou para si mesma, observando suas duas moedas mergulharem nas águas cristalinas.
Um par de borbulhares ao lado de seus centavos afundando chamou a atenção da jovem, e, ao procurar a pessoa que também esperava por sua sorte, ela se espantou com um par de revoltos cabelos castanhos claros. Apesar de estar a uma dúzia de turistas, a pele alva e os olhos azulados, compenetrados na grandiosidade da fontana, eram-lhe inconfundíveis.
Brisa teve que se lembrar de como respirar.
Duas moedas, Hewis? Hmmm... Tem alguém querendo arranjar um bofe magia na capital italiana... – Lindsay tirou sarro com seu sorriso de menina sapeca, fazendo a amiga desviar os olhos do rapaz para encará-la preguiçosamente.
– Você é tão cheia de segundas inten...
A morena, porém, não finalizou sua frase repleta de ironia. Ao retornar seu olhar para o charmoso britânico, ele não estava mais ali. No lugar que ele estava, havia apenas uma garota tentando fotografar a paisagem entre dois outros turistas.
Brisa suspirou de frustração, questionando se sua mente estava planejando algum complô contra ela mesma. Ou se seu coração estava achando que poderia se apaixonar facilmente por alguém que ela mal vira. Talvez eu tenha inventado essa merda toda, pensou, ignorando as brincadeiras e os olhares sugestivos da pessoinha irritante que chamava de amiga.

Eu estou num lugar chamado vertigem
É tudo o que eu desejava não saber
A não ser que você me dê algo que eu possa sentir
(U2 – Vertigo)
 
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