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02 janeiro 2013

Burning Red (original)


Sinopse: Christopher, um fotógrafo londrino em busca das melhores imagens. Brisa, uma escritora californiana em busca das melhores histórias.
Uma longa viagem a Europa. E duas vidas entrelaçadas. 
Eles não esperavam se conhecer em Roma, reencontrar-se em Barcelona e viver uma intensa paixão em Paris.
Juntos de Lindsay e Tom – seus inseparáveis e loucos amigos –, Brisa e Chris embarcam em uma road trip contemporânea pelo continente de ouro, não deixando de lado a boa cultura do rock ‘n roll e das loucuras a serem feitas enquanto ainda são jovens. 
Mas quando se derem conta, estarão completamente dependentes e em busca de algo deliciosamente diferente: um ao outro.

"Garota, garota, garota, você vai me incendiar. Meu cérebro está em chamas, não sei qual caminho tomar." – Burning Love, Elvis Presley.

"Amá-lo é como dirigir um Maserati novo por uma rua sem saída. Mais rápido que o vento, apaixonante como o pecado." – Red, Taylor Swift.

Classificação: +18
Categorias: Originais
Gênero: Comédia Romântica
Terminada: Não | Última atualização: 15/04/2013


01. Capítulo 1 - Roma


02. Capítulo 2 - Milão


03. Capítulo 3 - Barcelona, Parte I (EM BREVE!)

01 janeiro 2013

BR (Original) - Capítulo 2



Capítulo 2: Milão

É a batida, meu coração pula quando estou com você,
Mas eu ainda não entendo
(Beyoncé - Crazy in Love)


Arredores da Toscana – Trem da ES Italia AV
09h14min

            – “Já percebeu que as prateleiras feitas hoje em dia quebram ou então desabam sob o peso das quinquilharias depois de seis meses de uso? O mesmo acontece com as casas, e com as roupas. Esses filhos da puta já inventaram o plástico e com ele poderiam fazer casas que durassem para sempre. E os pneus? Os americanos se matam aos milhões todos os anos com pneus de borracha defeituosa que aquecem nas estradas e estouram.”
            – Jack Kerouac é um fodido escritor! Adoro o jeito que ele critica os princípios sociais. – Lindsay murmurou enquanto Brisa fez uma pequena pausa em sua leitura em voz alta de On The Road.
            – É o que eu sempre digo! – ela concordou, beijando a testa da maluquinha com a cabeça deitada em seu colo no maior estilo folgada. – O fato de ele ter escrito esse livro na década de 50 já o faz um gênio! Narrar coisas que a sociedade chama de “polêmica”, mas de um modo tão casual, é o que mais me fascina...
            – E nesse trecho que você acabou de ler é como se ele tivesse previsto essa crise do euro, sabe? E a gente estando aqui hoje, vendo essas pessoas conseguindo se recuperar e seguir em frente, mesmo com a vida financeira aos frangalhos, é realmente algo a se valorizar.
            – Sem dúvidas. – A morena concordou, jogando o exemplar surrado na mochila a sua esquerda, olhando para a janela e vendo o belo dia que estava do lado de fora do trem. – As indústrias fabricando coisas que logo nos farão substituir por outras, o modo compulsivo de pensar e agir, os julgamentos, os preconceitos... Kerouac aborda tanta coisa ao mesmo tempo.
            – Uma mente grandiosa produz ideias grandiosas...
            – Eu gostaria de escrever algo que fizesse as pessoas repensarem seus estilos de vida, sabe? – murmurou, olhando para a amiga que a fitava curiosa – Não algo que as fizesse apenas se divertirem, mas refletirem, pararem pra pensar se a forma como elas estão vivendo é exatamente a que elas sempre imaginaram. Algo que as fizesse consertar o futuro triste que elas possam ter por causa de toda essa histeria capitalista, essa necessidade de possuir coisas, importando-se com o que os outros vão achar e não no modo como estão alienadas.
            – Você já é essa pessoa, baby girl – A companheira sussurrou, pegando a mão de Brisa que se embromava nas mechas platinadas em uma carícia – Eu vejo essa mulher incrível e inteligente que você é, que faz a vida de todo mundo ao seu redor ser um pouquinho melhor. Só falta mostrar ao mundo.
            – E você acha que um dia eu chego lá? – ela perguntou com um sorriso brincando em seus lábios.
            – Meu bem, você é o tipo de garota que não precisa de uma trilogia de romance sobrenatural pra arrasar! – A loura prontificou, levantando-se do colo da amiga para beliscar a pontinha de seu nariz. Ambas sorriram.

Milão, Itália – Galleria Vittorio Emanuele II
16h52min

            Lindsay não sabia para onde olhar, as inúmeras lojas de grife e a arquitetura repleta de mosaicos históricos dividiam sua atenção. Brisa contemplava plenamente a galeria projetada e construída durante a Belle Époque, a qual possuía um nome em homenagem ao primeiro rei da Itália posterior ao seu reconhecimento como país.
            Após dois pares de dias na cidade de Roma, as amigas seguiram para a segunda cidade do roteiro de viagem que planejavam desde que terminaram o colegial. E depois de verem pessoalmente a Torre de Pisa, o Pantheon e tantas basílicas e museus de arte na capital italiana, Milão realmente parecia o destino certo.
Elas haviam visitado a belíssima Catedral de Milão – Duomo di Milano – e se encantado com a obra sede da arquidiocese da cidade, uma das mais célebres edificações do estilo gótico europeu. E, mesmo não sendo muito religiosas, seria impossível não se sentirem tocadas pela aura celestial ali abrigada. Era como se um espírito bom e saudável rondasse toda a região – era revigorante.
Os olhos de historiadora, que a jovem loura havia adquirido na faculdade, faziam com que ela pudesse apreciar mais detalhadamente cada pedacinho da arquitetura impecável típica da Itália, explicando vez ou outra para a amiga alguma coisa a mais que havia aprendido em tantas aulas. Mas era óbvio que também estando cercada de tantas boutiques da GucciPrada e Louis Vuitton, seria difícil controlar seus hormônios de consumista.
– Se alguém me dissesse que a mesma pessoa que estava criticando o capitalismo estivesse cobiçando bolsas caríssimas, eu não iria acreditar... – Brisa provocou com um sorriso, caminhando ao lado da loura que quase lambia as vitrines.
– Estou apenas dando uma olhadinha... – murmurou travessa – Por que tem que ser tudo tão caro aqui? Não tenho coragem de pagar uma pequena fortuna nisso... Vou esperar pra comprar minhas Pradas quando voltar pra Califórnia!
– Baby, seu pai é podre de rico e te deu um cartão de crédito pra gastar nessa viagem... O que está esperando?
– Eu não sei... E se...
– Lindsay, pode parar com o teatro, eu sei que você não vê a hora de ter aquele Mary Jane nos seus pezinhos. – ela mexeu as sobrancelhas, apontando para o sapato em uma vitrine.
– Ahhh! – O gritinho excitado da loura fez os turistas olharem para as garotas como se fossem malucas, e Brisa tapou os olhos de vergonha, mas sem conseguir esconder uma risada – Não vejo você boazinha assim desde aquela liquidação de livros na Barnes & Noble. Vamos, vamos! – ela agarrou a mão da amiga enquanto a arrastava para dentro da loja mais próxima.
A morena apenas se perguntava como Lindsay conseguia saltitar naqueles saltos altos, torcendo para ela não pagar um mico semelhante ao da Basílica de São Pedro. Ela ria só de lembrar.
– O que acha dessa echarpe? – A garota de cabelos claros perguntou, envolvendo o tecido suave ao redor do pescoço. – Parece àquele do filme Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, não é? – ela riu, desfilando dentro da loja de um lado para o outro enquanto Brisa revirava alguns cabides.
– Não exagera, Lind! – ela riu, o que fez a amiga mostrar a língua.
– É sério, eu sou praticamente A Garota da Echarpe Verde, só falta eu virar colunista de uma revista e encontrar o amor da minha vida.
– Loura psicótica... – A escritora cantarolou, recebendo uns tapas da loura enquanto tentava não rir. – Pelo menos os delírios de consumo você tem igual à personagem!
E é lógico que a loura não deixaria de exercer sua influência de compras na amiga. Na verdade, Brisa tinha uma queda por shopping quando o assunto era livros, perfumes, jaquetas de couro e Converses. Ela tinha praticamente um closet só para seus incontáveis All Stars – um pequeno capricho que adquiriu aos 12 anos e não largou mais.
– Essa jaqueta é a coisa mais linda que eu já vi! – ela falou ao puxar a peça laranja do expositor e mostrar à parceira de viagem.
– Lin-dís-si-ma. – Lindsay quase soletrou, tocando no couro legítimo antes de tirar rapidamente do cabide – Experimente agora!
A morena não perdeu tempo, indo rapidamente ao provador chique e em tons dourados da Gucci, jogando o casaco por cima do delicado suéter preto de malha com mangas na altura do cotovelo, delineando as curvas dos seios e cintura. O item ficou perfeito com seu usual jeans skinny, e ela teve certeza disso ao ver o sorriso de aprovação da amiga quando saiu da cabine.
– E então? – sorriu, dando a famosa voltinha 360º graus.
– B, você está terrivelmente comível!
O veredito a fez soltar uma gostosa gargalhada.
Depois da jaqueta de couro laranja, a tal echarpe verde, uma bolsa Prada, o Mary Jane da Louis Vuitton e uma risada ao verem a conta do cartão de crédito do Papa Hart, as garotas se acalmaram e decidiram dar mais algumas voltas pela galeria.
Os imensos vitrais ao longo do teto, as paredes em tons de ouro, as luminárias douradas e o piso de mármore com mosaicos eram de tirar o fôlego. Havia quatro entradas – as quais possuíam as tantas lojas de grife em seus corredores –, e todas elas rumavam para o grande centro.
– O que será que esses desenhos do chão representam? – Lindsay perguntou à morena, parando no meio do caminho para observarem melhor a obra.
– Ah, as figuras do centro são o octógono formado pelo cruzamento das vias, com o brasão da Casa Savoia no meio, aquela dinastia europeia. – ela apontou para a parte central do lugar, lembrando-se das pesquisas que havia feito antes da viagem. – Essas outras do lado direcionam para cada saída da galeria, representando as quatro cidades que já foram capitais da Itália.
– Milão, Turim, Florença e Roma.
– Exatamente! – Sorriu, identificando as imagens – A que representa Roma é a loba amamentando Rômulo e Remo, de Milão é Napoleão, de Turim é o tão lendário touro...
– Esse é o touro da lenda? Então precisamos pisar nos testículos de um certo bovino! – A loura pulou, fazendo sua pose de machão antes de seguir o mito que todos têm que fazer ao visitar Milão.
A tradição consistia em pisar com o calcanhar do pé direito sobre a genitália do animal e dar um giro sobre ele, e assim fizeram Lindsay e Brisa. Originalmente, o ritual era feito apenas durante a virada de ano, mas logo se tornou uma crença repetida por centenas de turistas e milaneses.

Milão, Itália – Ruas de Brera
21h10min

            – Sabe, às vezes eu fico olhando essas construções antigas e tão lindas, essas lojas vintages e fico me lembrando do Matt. – A bela morena disse em um murmúrio, andando por entre uma via que exalava a saudosa boemia tipicamente europeia.
            – Lembrando dele de uma forma boa ou...? – A amiga quis saber, desviando os olhos de um vinil de Cole Porter que viu na vitrine de um acolhedor brechó.
            – Um pouco dos dois talvez. – Deu de ombros, encarando a loura magra e de pele alva, enquanto caminhavam pelo bairro de Brera repleto de jovens e música dos anos 20. – Eu já não era mais apaixonada pelo Matt há um tempo, mas ele foi tão bom pra mim.
            – Eu sei, você acha que deve algo a ele por ter te amado durante tantos anos de relacionamento, mas você não pode ficar remoendo isso; vocês terminaram por um motivo.
            – E é exatamente esse motivo que me faz voltar e repensar minhas atitudes.
            – B, eu concordo que Matthew era um cara legal, mas ele sempre deixou a desejar em alguns aspectos. – murmurou, abraçando a cintura da amiga que era alguns poucos centímetros mais alta que ela. – Deus sabe quantas noites você aparecia lá em casa depois de ter brigado com o Matt, e sempre pelas mesmas razões!
            – Ele nunca entendia a paixão que eu tinha pela arte e pela literatura...
            – Ele nunca entendia o fato de você viver pela arte e pela literatura, Brisa. – ela corrigiu. – E Matthew sempre foi um pouquinho egocêntrico demais pra ver algo além de seu próprio umbigo, mesmo sendo um cara simpático.
            – Isso é bem verdade! – A escritora riu suavemente, apertando o braço esquerdo nos ombros da companheira em um silencioso “obrigada”. – Além do mais, sempre faltou um pouquinho de ardência em se tratando dele!
            – O tapado do Matthew estava precisando te dar um pouco mais de faíscas, baby! – Lindsay falou alto, chamando a atenção de alguns milaneses que passavam por ali.
            – Fale mais alto, acho que o Papa não conseguiu te ouvir. – Brisa riu, meneando a cabeça.
            – Ah, olha só! – A maluquinha irrompeu, correndo até uma lojinha de souvenires com algumas banquinhas na calçada. – Isso não é a cara do seu ex-namorado bebezão?
            As duas riram quando a loura colocou um daqueles óculos medonhos com nariz e bigode, começando a fazer caretas.
            – Oi, eu sou o Matthew e pago de intelectual, mas o único livro que eu li foi Um Amor Para Recordar– ela disse com a voz grossa e seu péssimo sotaque nova-iorquino, ouvindo as risadas da morena.
            – Melhor! Meu nome é Matthew e eu adoro garotas supergostosas, mas faço uma exceção pra você, coração! – Brisa o imitou, rebolando com uma bunda de plástico por cima da calça jeans.
            Lindsay caiu na gargalhada. E a romancista teve certeza que seu ex-namorado nunca havia sido uma escolha muito sábia. Sempre faltou algo de especial nele, um tempero que a fizesse querer mais, e seu pensamento novamente foi direcionado a um estranho par de olhos azuis que conhecera há poucos dias.

Milão, Itália – Piazza Santa Maria delle Grazie
17h36min

            A ostentosa arquitetura gótica e românica de uma das igrejas mais famosas do país era de encher os olhos. E a Basílica Santa Maria delle Grazie tinha um sentido a mais para ser considerada um ponto indispensável em qualquer roteiro de viagem – a polêmica e comentadíssima pintura de Leonardo da Vinci, A Última Ceia.
Os tons brancos das paredes e inúmeros pilares, o tibúrio – cúpula em forma de pirâmide – repleto de imagens geométricas em tons alaranjados, os bancos marrons e o peculiar tom de ouro na igreja eram lindos.
            Lindsay estava concentrada em todas as sílabas ditas pelo padre, que foi praticamente coagido pela loura a ensinar cada detalhe que sabia a respeito do artista, pelo qual sempre fora completamente fascinada. Ela já até planejava um trabalho final de curso todo envolto da vida e obra do renomado italiano.
            Brisa, por sua vez, contentava-se em se deslumbrar com as imagens impecavelmente esculpidas no teto, embora a saleta simples que abrigava o afresco foi o que mais a encantou. O cômodo não era lá grande coisa, era pequeno, com as paredes brancas e o piso escuro, com uma pintura ou outra – mas na parede central estava A Última Ceia, sem qualquer quadro ou moldura significante. Apenas a arte de Da Vinci eternizada na própria textura.
            E lá estava Jesus no centro em toda sua magnificência com seus apóstolos se agrupando ao redor. A garota reconheceu Judas Iscariotes no lado direito da imagem, de cabelos brancos, inclinado sobre João. Ela se intrigou com o pequeno saleiro tombado por Judas, uma clara superstição de azar.
E é claro que a morena não poderia deixar de se lembrar do livro O Código da Vinci, tentando ver a simetria entre os corpos de Jesus e Maria Madalena na pintura, a tão discutida forma de cálice entre os dois, simbolizando uma possível fertilidade da mulher retratada – e as teorias do autor, Dan Brown, sobre herdeiros de Cristo.
            – Terminou de extorquir todas as informações do padre? – Brisa brincou com a amiga ao vê-la se aproximar, toda feliz.
            – Fiz o que pude! – ela riu, também admirando as belas obras em cada canto da basílica enquanto caminhavam vagamente para a entrada principal – Ele era tão inteligente e bonzinho, explicou muita coisa sobre o lugar.
            – Com essa sua cara de serial killer ele tinha que explicar mesmo, matou o pobrezinho de medo!
            – Vai se foder, Hewis. – A historiadora a empurrou de lado com uma careta, fazendo a outra rir.
            – Uh, palavrão na igreja, loura? – Provocou, recebendo um revirar de olhos de Lindsay antes de ela fazer uma carinha animada um tanto quanto suspeita...
            – Está a fim de fazer algo radical?
            – Fiquei com medo do seu olhar psicótico junto dessa frase, mas estou dentro!
            – Então, vamos brincar de quem fala a palavra “pênis” mais alto? – ela parou, mexendo as sobrancelhas divertidamente ao passo que a morena arregalava os olhos.
            – O quê? Aqui, sua doida?
            – É o que torna tudo ainda mais radical... – Atiçou, mexendo nos cabelos lisos e claros. – Pênis. – sussurrou baixinho.
            – Droga. – A jovem murmurou, rindo antes de seguir a brincadeira ridícula. – Pênis.
            – Pênis. – A loura falou um pouco mais alto, com uma risada.
            – Pênis. – ela aumentou o tom de voz, olhando para o lado para ver se alguém havia ouvido.
            – Pênis.
            ­– Pênis! – Brisa gritou, fazendo a amiga abrir a boca em surpresa ao mesmo tempo em que meia dúzia de pessoas girou seus pescoços para lhe encarar. Ela corou no mesmo instante.
            Logo em seguida a risada da parceira foi ouvida, enquanto a morena sentia vontade de cavar um buraco para enfiar a cabeça – as maçãs do rosto queimando com o vermelho. Mas só o que lhe sobrou foi rir também.
            – Okay, agora foi muito melhor do que aquela vez que jogamos no casamento da minha tia Matilde. – Lindsay comentou entre risos.
            – Claro, daquela vez foi você que pagou o mico na hora do “você já pode beijar a noiva”. – A jovem riu, lembrando-se da cara de pimentão da amiga.
            – Ah, você não pode esquecer que...
            – Com licença? – Uma voz rouca e suave sem querer interrompeu a frase da loura, e Brisa sentiu todos os pêlos de seu corpo se arrepiarem instantaneamente.
            O sotaque britânico naquelas duas palavrinhas fez com que ela se sentisse uma adolescente outra vez. E ela gostava daquela sensação. Na verdade, ela adorava.
            A garota virou-se, seguindo a direção da voz e constatando que sua mente não lhe pregara peças. Era ele, o lindo rapaz do Coliseu que estivera em sua cabeça mesmo quando ela se obrigava a tirá-lo dali. E ele estava encantador, como sempre.
            – Eu pensei que nunca mais fosse te ver. – ele prosseguiu em um sorriso divertido, os olhos sorrindo igualmente em um brilho adorável.
            – É, eu... Pensei a mesma coisa. – Balbuciou ainda meio perturbada com a presença repentina. As palavras pareciam fugir dela.
            – E você costuma gritar partes da anatomia masculina sempre que visita conventos e coisas do tipo? – Perguntou com os lábios repuxados para o canto, tentando esconder um sorrisinho maldito.
Filho da mãe provocador, Brisa pensou divertida.  
– Não... – A garota olhou para os lados em sua melhor poker face – Só digo isso em ocasiões especiais mesmo. Normal...
            O jovem riu com o jeito da morena, deslumbrando-se com os olhos verdes levemente marcados com lápis de olho e longos cílios. As pernas delicadamente torneadas sobre o jeans chamavam a atenção, junto dos Vans vermelhos nos pés e uma camiseta branca de ombro caído, com a tão famosa boca dos Rolling Stones estampada – ironicamente ou não, com a bandeira da Inglaterra enfeitada em lantejoulas na língua do desenho.
            Ele sorriu.
            – Você sabia que esse desenho significa antiautoridade e sensualidade? – questionou, apontando para a blusa da garota.
            – Sério? – inquiriu surpresa, olhando-o curiosamente. Ele estava de tirar o fôlego em calças jeans simples, camisa de linho azul clara e um sapatênis surrado. – Eu me senti uma rebelde sexy agora! – ela riu.
            “Rebelde sexy”? What the fuck? Preciso ser internada...
            – E você parece uma. – ele murmurou com um leve traço de timidez que fez a garota piscar os olhos rapidamente antes de abrir um singelo sorriso.
            – Mas a inspiração em si foi o Mick Jagger, não foi? – A jovem tentou desviar o assunto, proibindo-se de corar em frente ao rapaz. Ela não era do tipo que corava por causa de um homem, por favor!
            – É o que parece, mas há quem diga que simboliza a língua de Kali, aquela deusa hindu da criação, vida...
            – E destruição. – Brisa completou encantada por um cara tão lindo saber sobre algo tão... diferente. Aliás, ele parecia ser diferente.
            – Exatamente.
O sol adentrava a basílica de uma maneira contagiante naquela tarde quando ele a olhou profundamente, tentando enxergar a alma tão cativante que aquela garota possuía. O britânico seria capaz de observá-la por horas sem se cansar.
– Você se importa se... eu bater uma foto sua? É que a luz está perfeita e você é tão linda... – ele ousou a pedir, e só então a americana notou a mesma máquina fotográfica de Roma nas mãos do rapaz, e que Lindsay nem estava mais ali por perto.
– Claro. – Sorriu, jogando os cabelos para trás e olhando para um ponto ao longe antes de ouvir um suave clic. Ao retornar seu olhar para o inglês, no entanto, ela ouviu o som da máquina outra vez.
Ele observou, admirado, as fotografias tiradas, extasiado pela beleza singela e tão inspiradora daquela escritora californiana. Talvez “perfeita” fosse uma palavra casual demais para descrevê-la. Era como se ela passasse sua vivacidade para o retrato.
– Essa basílica é tão linda, não é? – Brisa disse aleatoriamente, suprindo a curiosidade de ver as fotos tiradas ou de perguntar o motivo de ele gostar de fotografá-la. Talvez o ambiente favorecesse.
– É o que eu estou pensando desde que cheguei aqui... E o mais interessante é saber que essa igreja foi bombardeada durante a 2ª Guerra Mundial e ainda está em pé!
– Ah, eu ouvi falar sobre isso. – ela sorriu, espelhando a feição plena do rapaz – Primeiro, construída no século XV e, depois, reformada sem perder os traços originais! Sabe como se fizeram para proteger a pintura de Da Vinci?
– Não, o quê? – ele riu curioso.
– Foram colocados sacos de areia ao redor de toda a parede onde está a pintura, como se fossem trincheiras!
– Muito espertos! – Brincou com ela, não contendo um sorriso de satisfação no rosto.
– Licença um pouquinho... – Lindsay apareceu em um incomum jeitinho delicado e sutil – Vou roubá-la por dois minutinhos, tudo bem? – Comentou com o rapaz, não deixando de notar como ele era fofo. Ela teve vontade de colocar o britânico no colo e cantar uma canção de ninar.
– Eu já volto. – A morena garantiu, seguindo a amiga por um instante.
– Eu vou esperar. – ele sorriu de volta, acenando com a cabeça em um cavalheiro gesto inglês enquanto assistia a bela garota caminhar calmamente até o altar.
Entretanto, o jovem logo foi interrompido por um branquelo com cara de bêbado – só a cara mesmo, porque a última bebida havia sido a da noite anterior – em seu melhor estilo “sou bonito e britânico, todas me querem”.
– Brother, você precisa ver o que está acontecendo lá fora! – Disse ao se aproximar, jogando o braço sobre os ombros do rapaz.
– O que você fez dessa vez? – ele riu, socando o peito do amigo em cumprimento.
– Eu não fiz nada. Ainda. E é por isso que você tem que ver, é rápido!
– Falou, então vamos logo! – Concordou ao ver a morena ainda conversando com a amiga ao longe, calculando o tempo. – Mas, Tom, espera só um...
O maluco que chamava de amigo o rebocou mesmo assim, ansioso como uma criança louca para ver o presente de Natal, rumo à saída principal da igreja, ignorando alguns turistas que circulavam por ali em suas sandalinhas de Jesus.
– Qual é? – O parceiro de viagem choramingou ao varrer os olhos pela praça e não encontrar aquelas belezinhas. – Elas não estão mais aqui?
– Mulher de novo, Tom? – O inglês perguntou divertido, encarando com preguiça o homem ao seu lado.
– Mulheres, no plural, man! – ele emendou, voltando a fitar o amigo com um sorriso malicioso – Cinco espanholas quentes!
– Relaxa, você vai conhecer muitas delas quando chegarmos em Barcelona depois de amanhã!
            – Pode crer! Mas elas eram tão gostosas...
            – Fique aí chorando que eu preciso voltar. – Provocou o Tom, andando de volta na imensa basílica e encontrar a encantadora morena.
            No entanto, ela não estava mais ali. Muito menos a amiga maluquinha loura.
            Ele olhou para todos os lados e até pensou em checar debaixo dos bancos da igreja, mas sua rebelde simplesmente desaparecera.

Milão, Itália – Hotel Romana Residence
01h53min

            – Eu não acredito que o bofe britânico sumiu de repente hoje mais cedo! – Lindsay murmurou pela terceira vez naquela noite, com a boca cheia de creme dental.
            – Muito menos eu. – A amiga comentou, digitando algumas coisas em seu notebook, na escrivaninha ao lado de sua cama.
            – Vai ver ele sentiu vontade de fazer xixi e correu para um banheiro! – ela riu ao ouvir as palavras da garota à medida que escovava os dentes.
            Brisa estava certa sobre ele enquanto a loura conversava com ela, no altar da basílica, sobre ir a uma palestra acerca de artistas renascentistas e deixá-la flertar com o bonitão. Mas então ele desapareceu tão rápido quanto apareceu, e ela decidiu seguir a amiga na tal palestra.
            Duas horas depois, quase especializadas em Michelangelo e Da Vinci, as californianas produziram-se para curtirem uma noite clássica no Teatro alla Scala em uma belíssima ópera, retornando ao hotel pouco depois da meia-noite.
            – O destino deve estar brincando com vocês... – A loura comentou em seu pijama, deitando-se na cama em um gemido de satisfação. – Quem sabe o reencontramos por aí?
            – Quem sabe?
            – Boa noite, B. – ela disse em um sussurro, soprando um beijo para a morena enquanto apagava a luz do abajur.
            – Boa noite, baby. – Sorriu, retribuindo o beijinho no ar antes de retomar a atenção à tela do computador; a aconchegante suíte do hotel à meia luz.
            Talvez sua quase-irmã tivesse razão sobre o inglês, embora Brisa quisesse negar o efeito que ele possuía sobre ela. Não era de seu feitio se sentir assim por alguém que mal conhecia, mas ele trazia à tona sentimentos há tempo guardados.
            E, meneando a cabeça, como se tirasse aqueles pensamentos de sua mente, ela continuou a digitar.
           
“A vida seria mais bem vivida se as pessoas tivessem almas nefelibatas, cuja definição é alguém que vive nas nuvens. É preciso ter um dos pés no chão, é claro, para amparar uma possível queda de uma nuvem alta demais – mas se ela deixar de ser espessa, se ela deixar toda a sua água cair em forma de uma terrível tempestade, não se deve esquecer que logo um céu claro, com mais nuvens brancas, surgirá.
Seja um nefelibato, haja com um, sem medo de tentar, sem medo do que irão pensar. Tente. Permita-se errar. Entregue-se de corpo e alma ao que você acredita, só não se esqueça de segurar seu coração por um tempo um pouquinho maior. Assim o erro de se perder entre as nuvens será menor, e os resultados serão os dias mais claros possíveis. E você viverá entre as nuvens mesmo que elas deixem de estar ali.”.

A romancista encarou as próprias palavras, pensando em aplicá-las a si mesma. Talvez elas saíram tão espontaneamente como uma mensagem de seu subconsciente, para deixar os “porquês” e os “e ses” de lado. Talvez ela devesse se permitir ser uma nefelibata e sentir como seria estar entre as nuvens.
E talvez ela pudesse reencontrar o jovem britânico em seu próximo destino – aliás, tudo pode acontecer em Barcelona.


Eu não sou eu mesma
Ultimamente eu ando boba, eu não faço isso,
Estive brincando comigo mesma, baby
Eu não me importo
(Beyoncé - Crazy in Love)

Burning Red (Original) - Capítulo 1


Capítulo 1: Roma

A selva é a sua cabeça
Ela não pode mandar no seu coração
Um sentimento é muito mais forte que
Um pensamento
(U2 – Vertigo)

Roma, Itália – Locanda Colosseo
10h33min

            A capital italiana estava lotada. E quente – tremendamente quente. O número da unidade acabava de pular de 4 para 5 no painel eletrônico que monitorava o clima da cidade, e Brisa sorriu ao limpar um filete de suor que começava a escorrer em sua nuca. Los Angeles costumava ser quente durante o verão, mas nada que se pudesse comparar a Roma e seus recentes 35ºC.
            – Socorro, amiga! Quero voltar pra LA! – Lindsay e seu costumeiro drama começaram a se apresentar enquanto ela retornava ao quarto, começando a revirar sua mala.
            – Tem certeza? – Brisa sorriu maliciosamente, olhando rapidamente para a amiga ao colocar um fio de cabelo atrás da orelha. – Não foi você que estava louca pra conhecer alguns italianos?
            – Tudo bem, Roma é incrível! – ela disse animadamente, jogando as mãos para cima e se esparramando na cama. – Você viu aquele moreno gatíssimo que ajudou a trazer nossas malas? E ele me desejou boa estadia no hotel! Com certeza eu terei uma boa estadia se encontrá-lo mais tarde...
            – Céus, Lindsay, não estamos na cidade há nem duas horas e você já quer dormir com o primeiro europeu que aparece? – Brisa riu, estreitando os olhos, ainda debruçada no parapeito da varanda, tentando admirar cada traço do Coliseu, ao longe.
            – Não é todo dia que encontramos com um italiano de tirar o fôlego em plena Itália! Mas já que homens não fazem meu tipo, você bem que poderia ter uma boa estadia com ele... – murmurou toda sensual, jogando um travesseiro nas costas de Brisa. – E olhe pra mim enquanto eu falo com você, sua bitch!
            – Adoro você e seus doces apelidos, mas deixe de ser pervertida pelo menos uma vez na vida! – ela falou, pegando o travesseiro e o acertando no nariz arrebitado e convencido da loura, retornando ao quarto. Ambas riram antes de Brisa ser puxada para o lado da amiga, na enorme cama.
            – Não posso prometer isso, nasci assim... – continuou rindo, cheia de segundas intenções – Mas eu prometo que vamos fazer dessa viagem a melhor de nossas vidas, baby girl! – Lindsay exclamou, beijando uma das bochechas da morena.
            – Se eu estiver ao seu lado, com certeza, loura psicótica!
            – Já falei que loura psicótica é a sua avó – grunhiu, mostrando a língua ao levantar-se num salto – Vamos nos trocar? Preciso arrasar no look e parecer uma perua mafiosa!
            – Hm, está incorporando mesmo o estilo de vida italiano... Se você quiser estrelar O Poderoso Chefão, é claro! – ela riu, rolando na cama para avistar a criatura de mechas platinadas revirando uma das malas.
            Ela apenas recebeu um daqueles famosos olhares de “está brincando com a minha cara, bitch?”, o que a fez rir ainda mais.
            – Pulp Fiction então?
            – Vai se danar, Brisa Hewis! E eu sou muito mais tudo de bom que a Uma Thurman naquele filme! Se eu tivesse esse meu corpinho em 1994 ao invés de ser uma baby superfofa, o Tarantino ia implorar pra eu interpretar Mia Wallace.
            – Aham, sem dúvida alguma...
            – E então a Uma Thurman não faria tanto sucesso e eu seria cotada pra todos os filmes no lugar dela, viraria a queridinha da América, seria indicada ao Oscar em 95, ganharia um Globo de Ouro em 2002, e a atriz Uma Thurman jamais existiria!
            – Ai, Lind, às vezes eu tenho medo de você – A morena meneou o cabeça, rindo, perguntando-se que droga Lindsay havia tomado dessa vez.
             – A Uma Thurman é tão foda, não é? E ela se parece comigo, somos lindas e louras de olhos azuis. Seria tão divo se eu também fosse famosa e fôssemos BFFs. – É, com certeza a droga que ela tomou não foi a do juízo perfeito já que a loura nunca parecia estar sóbria, mesmo se estivesse!
            E era isso uma das coisas que Brisa mais gostava em sua amiga, seu modo acriançado de ver o mundo, mesmo que meio louquinho às vezes. Lindsay era a diversão em pessoa – adorava tomar todas, divertir-se em boas festas regadas a muita vodca, e provocar os garotos que davam em cima dela, já ela gostava das garotas. A loura assanhada e seu jeito feliz contagiavam qualquer um.
            – Vamos, B, levante essa bunda de J-Lo da cama e me ajude a montar meu look!
            – Você sabe que não pode entrar de roupa curta e decotada nas catedrais, né? – Brisa riu, vendo a amiga escolher seu famoso conjuntinho sou-uma-turista-solteira-procurando-por-diversão; leia-se: short jeans com a estampa da bandeira dos Estados Unidos e uma regata escrita “I love Italy”. Totalmente original.
            – Poxa, justo agora que eu tinha desistido da minha fantasia de mafiosa pra usar algo mais casual... – Soltou um muxoxo, repuxando os lábios rosados e finos num beicinho manhoso.

Roma, Itália – Piazza del Colosseo
18h21min

            Uma hora perdida, dois italianos esquisitões que ofereceram carona, três mochileiros mexicanos bonitões e oito orações mentais de que o Papa aparecesse para tirá-las daquela situação, até que, finalmente, as amigas conseguiram retornar ao ponto de partida e visitar o Coliseu.
            – Não acredito que você nunca toma jeito nessa vida! – Brisa ralhou com a amiga, formando uma concha com a mão para tapar os olhos do sol. Já seria noite se comparado à metade do mundo, mas os verões na Itália costumavam ver o dia cair apenas por volta das 21 horas.
            – Como assim eu nunca tomo jeito? – ela perguntou incrédula, ainda mancando por entre as ruas de pedra.
– Lindsay, você armou o maior berreiro porque o seu salto quebrou no meio da Basílica de São Pedro. – A garota de cabelos castanhos claros, agora avermelhados por conta da luz do sol, respondeu como se fosse óbvio.
– Foi um mico, não foi? – Sua risada escapou no meio da frase enquanto ela cobria os olhos de vergonha, fazendo Brisa soltar a gargalhada que ela tentava segurar. – Espero que Maria tenha me perdoado.
– Não acredito que seu salto quebrou na frente da obra de Michelangelo! Todo mundo sério e admirando a escultura da Virgem segurando o corpo morto de Jesus e, bum, sua bunda espatifa no chão! – Brisa ria ao se lembrar da cara da amiga. Foi o melhor tombo da loura que ela já tinha visto.
– E eu achando que iria me comover vendo La Piet pessoalmente, ao invés dos slides das aulas de Renascimento... E minha única recordação será o tombo e a minha Prada arruinada! – ela choramingou, não sabendo se ria ou chorava diante da situação – E do jeito que aqueles turistas eram doidos, devem ter colocado um vídeo no YouTube pro mundo inteiro rir do meu mico em escala global!
Brisa passou o braço ao redor dos ombros magros da amiga enquanto caminhavam rumo à Praça do Coliseu, rindo de tanto melodrama e desespero juntos.
O movimento estava calmo por ali, a luz do sol ainda despontando, algumas pessoas que passavam por perto em suas motocicletas ou naqueles fuscas antigos e de cores chamativas. Era tudo lindo por ali, sem contar nos prédios antigos e em tantas obras de arte que Roma carregava a céu aberto.
– Pense pelo lado positivo, se você realmente estiver no YouTube quem sabe o Tarantino não veja o talento da minha loura desastrada e a chame pro seu próximo grande filme?
– Seria incrível, não seria? – Os grandes e redondos olhos azuis brilharam, e Lindsay soltou-se da amiga e ficou quicando de um lado para o outro em seu vestido florido. – Se a minha carreira como futura professora de História da Arte falhar, eu bem que poderia ser uma atriz de sucesso... Eu iria arrasar!
– Com certeza iria!
– E você, hein? Nem pra ter vestido uma roupa decente! Quando eu ficar famosa e a Ellen Degeneres fizer uma entrevista comigo e mostrar esse vídeo, vão me ver toda diva no meu vestido Dolce & Gabbana e você assim... – ela meneou a cabeça, parando no meio da rua para olhar a amiga de cima a baixo.
Jeans e camiseta são muito mais confortáveis. – Brisa se defendeu, olhando sua roupa com a estampa do álbum “The Dark Side of The Moon”, do Pink Floyd, com um nó na barra pra diminuir o tamanho enorme. Logo voltou a caminhar, avistando o Coliseu já de pertinho. – Ainda mais essa camiseta! Jared não me deixou trazê-la pra viagem, então eu roubei do armário dele minutos antes de sairmos de Los Angeles! – Confessou rindo, fazendo Lindsay acompanhá-la.
– Quero ver a cara dele quando souber!
– O Alexander me deu cobertura, mas Jared já descobriu! Recebi uma mensagem de texto agorinha dizendo que, quando eu voltar pra casa, terei uma surpresinha! – Riu ainda mais.
– Será que ele vai vestir o cachorro dele com um dos seus biquínis de novo?
– Não... Meu irmão vai planejar algo pior... Principalmente quando descobrir que eu peguei outras três camisetas dele!
As duas riram, deliciando-se da felicidade de se conhecerem há tanto tempo. Lindsay era, sem sombra de dúvidas, sua melhor e mais fiel amiga – que poderia dizer o mesmo de Brisa. Elas se conheceram no colegial, numa festa do capitão do time de futebol americano – diga-se de passagem, um tapado –, quando certa loura apareceu toda bêbada na frente da morena, dizendo que tinha acabado de terminar com sua namorada quando decidiu afogar as mágoas.
Resultado: Brisa a chamou de louca e Lindsay começou a chorar, mas depois que ela tropeçou e caiu na piscina, B teve que levar a maluca para casa, até que ambas concordaram que nenhuma delas tinha saco para curtir aquele tipo de festa. E as duas passaram o restante da noite assistindo Supernatural, com uma pizza e duas cervejas.
– Ah, existe coisa mais linda que o Coliseu? – ela ouviu um suspiro escapar dos lábios de Lindsay, ambas paradas enquanto babavam em frente ao monumento.
– É perfeito, não é? Parece que voltamos à época do Império Romano.
– Só falta o Russell Crowe aparecer e dizer que vai ser o meu gladiador! – Lindsay riu, olhando pra amiga com um sorriso sapeca.
– Tem certeza que você é lésbica? – ela debochou, aproximando-se da entrada do anfiteatro enquanto admirava cada cantinho.
– Para o Russell eu faria uma exceção... E para o Hugh Jackman, Bradley Cooper e aquele gatinho que canta “But tonight I'm loving you”... – A loura riu, cantarolando ao final da frase.
– Enrique Iglesias? – Brisa questionou, olhando para a amiga com uma das sobrancelhas arqueadas. – É, esse eu também pegava. – concordou; ambas rindo.
– B, eu vou passar bem rápido no hotel e depois encontro você lá dentro do Coliseu, ok? – Lindsay prometeu enquanto ela e a amiga se aproximavam da entrada.
– Por que, sua louca? Eles vão fechar daqui a pouco!
– Eu não posso entrar pela primeira vez no Coliseu com um sapato com salto e outro não, né? – Esclareceu com uma careta, apontando para o Peep Toe vermelho.
– Tudo bem, mas não demora! – A morena pediu com uma carranca, recebendo um beijinho na bochecha antes de ver a baixinha correr até o hotel que ficava a alguns minutos dali.
Depois de entregar seu bilhete, Brisa pôde, enfim, desfrutar da história viva que guardava cada canto do imenso Anfiteatro Flaviano. Realmente de um tamanho colossal, fazendo jus à própria origem de seu nome.
Poucos turistas circulavam por ali devido ao horário, podendo oferecer a chance daquela jovem escritora de Los Angeles de se sentir maravilhada pela dimensão daquela obra. Visitar o Fórum Romano, observar as belas catedrais do Vaticano e admirar as obras de Michelangelo na Capela Sistina não possuíam a metade da magia que exalava pelo Coliseu. Talvez pelo fato de ser uma amante da História Antiga, talvez pelo fato de ser uma simples estudante de Literatura Inglesa que sempre sonhou em pisar num lugar tão utilizado por tantos escritores.
Brisa estava embevecida ao olhar aquelas paredes de pedra que a cercavam, mas ao avistar a arena, ela não sabia nem o que se passava por sua mente. Era como se ela pudesse ver os gladiadores lutando por suas vidas, batalhando com suas espadas enquanto jorravam sangue de suas entranhas. Ela quase podia ver os milhares de cidadãos romanos vibrando nas arquibancadas e o imperador em seu lugar especial, ao lado de sua esposa, aguardando o momento em que pudesse demonstrar sua decisão final: matar ou não matar o gladiador derrotado.
Obviamente ela sabia que todo aquele show não bastava de uma distração para o povo. A morena lembrava-se muito bem de estudar a Política do Pão e Circo que os imperadores propunham para evitar rebeliões das classes mais baixas – coisa não muito diferente do século XXI –, mas estar ali e imaginando todas aquelas cenas, fazia com que ela se sentisse importante. E quando o sol adentrou a arena e iluminou Brisa, ela se experimentou como parte da própria história.
No entanto, algo chamou sua atenção. Um baixo clic soou ao seu lado esquerdo e, ao semicerrar os olhos para enxergar melhor, ela avistou um belo garoto. Garoto não, um homem.
Você vem sempre aqui? – ele puxou assunto com um sorriso de lado, segurando uma máquina fotográfica profissional. Ambos riram da cantada terrível. – Tudo bem, eu sou péssimo com cantadas e garotas bonitas. Só achei indispensável ter uma paisagem maravilhosa como essa e, quando digo paisagem, eu me refiro a você.
Brisa soltou outra risada diante da cara de pau do rapaz, mas ela não poderia negar que o sotaque britânico, em cada uma de suas palavras, era de derrubar calcinhas.
– Você é sempre desequilibrado assim com todas as garotas que conhece? – ela murmurou sarcástica, mal contendo o riso, enquanto o via se aproximar.
 – Só com as que andam por aí de All Star e camisetas do Pink Floyd. – respondeu com um sorriso divertido, embora levemente tímido. E a morena ficou parcialmente entorpecida com os olhos brilhantes, esquecendo-se do comentário irônico que estava prestes a revidar.
O azul nas íris do jovem continha um tom esverdeado que deixava seu olhar hipnotizante, e Brisa perguntou-se qual deveria ser a sua cor sem o contraste da luz do sol. Ele era realmente lindo, mas não daquele tipo de beleza que você quase hiperventila e depois solta um suspiro pré-apaixonado – sua beleza era daquelas que você tem vontade de ficar observando pra ver se tem alguma outra coisa que o faça parecer ainda mais encantador.
Os olhos pequenos, o nariz simétrico e a boca rosada em uma linha pareciam perfeitamente naturais entre as maçãs do rosto e a mandíbula marcada, cobertas por pequenos pêlos que começavam a despontar em uma barba por fazer. A pele pálida, levemente avermelhada pelo dia, deixava-o particularmente tentador; e os cabelos de um castanho bem claro eram a peça final, no famoso estilo bagunçado de qualquer jovem britânico.
Brisa surpreendeu-se ao ver que agora, pertinho dela, o rapaz era bem mais alto que seus míseros 1,65 metros. Entretanto, olhou bem séria para ele.
Hey, por acaso você não tem um mapa em mãos? – ela perguntou, o que o fez encará-la com surpresa.
– Não, acho que não. – Tateou os bolsos da calça rapidamente, franzindo o cenho antes de voltar a fitar os olhos verdes da garota. – Por quê?
– Ah, porque eu acabei de me perder no brilho dos seus olhos.
Ele olhou incrédulo para a morena e os dois caíram na gargalhada. A risada do jovem era deliciosamente agradável misturada à de Brisa, enquanto ele ainda se recuperava do humor nada convencional daquela pequena estranha. Ela era diferente de todas as mulheres que havia conhecido, provavelmente por seu jeito sincero e espontâneo de ser – coisa que ele já poderia afirmar mesmo com aqueles poucos minutos estando ao seu lado.
Ambos olharam-se amistosamente, tentando ler a mente um do outro enquanto mordiam os lábios para conter os risos. O clima instalado era incrivelmente ameno e sutil, e uma guerra poderia ser estourada há alguns metros dali que nenhum dos dois sequer notaria. Era como se uma bolha os envolvesse.
E, naquele instante, o jovem se sentiu completamente perdido por entre os olhos de Brisa. Eles possuíam um traço felino que o intrigou, como se fossem os olhos de um puma, com aquele tom de verde claro com pequenos salpicos cor de mel ao redor da pupila. Suas feições tão delicadas davam-lhe um ar de menina, contrapondo-se aos olhos tão maduros; os lábios cheios e avermelhados e a pele alva e impecável eram praticamente um convite ao pecado. Ela deveria ser a garota mais linda que já havia visto.
– Sua biiiitch, você não vai acreditar no que eu acabei de ver! – Uma Lindsay louca chegou correndo toda esbaforida, fazendo Brisa dar um pulo de susto.  – Você precisa ver também e dizer que eu não estou sonhando!
– O que aconteceu? – A morena questionou, em um misto de surpresa e frustração, sentindo os olhos azuis do belo rapaz, banhados de curiosidade, perfurando as duas.
– Você tem ver com os próprios olhos, né?
E a loura impaciente e agitada simplesmente arrastou a amiga pra fora do Coliseu, sequer dando a possibilidade de uma apresentação entre Brisa e o britânico do sotaque de derrubar calcinhas.
– Ele é a coisa mais linda que eu já vi, amiga! Pode acrescentá-lo a minha lista, logo depois do Russell Crowe e Bradley Cooper! – A loura repuxou os lábios finos em um sorriso travesso, os grandes olhos azuis brilhando.
– Como é? Ele? Lindsay Hart, não me diga que você aprontou esse drama por causa de um homem! – ela olhou feio pra amiga, já do lado de fora do imenso anfiteatro.
– É aí que surge a mágica, baby! Ele não é apenas um homem, é um deus grego, tipo um semideus dos livros do Percy Jackson! – Suspirou, olhando para os lados em busca do dito cujo. – E falando em deus, o que era aquilo dentro do Coliseu?
– Pois é, estaríamos no maior papo agora se você não tivesse empatado tudo. – A morena ergueu a sobrancelha para complementar seu comentário irônico, fazendo a amiga encará-la no mesmo instante, toda curiosa.
– Brisa, sua safada, você estava dando em cima dele?
Não exatamente... – Inclinou a cabeça, pensando em algo que definiria o momento de minutos antes.
– É claro que estava! – Lindsay soltou uma gargalhada gostosa, batendo palmas enquanto quicava. – E vocês trocaram telefone? Marcaram de se encontrar hoje à noite pra darem uns amassos? Aliás, qual o nome dele? Ele tem cara de britânico, todo fofo e branquinho daquele jeito... Ele é britânico?
– A gente tinha acabado de se conhecer, nem nos apresentamos. – ela riu, incapaz de ficar furiosa com a amiga por muito tempo.
– Como assim? – A jovem parou no mesmo instante, encarando a garota de cabelos escuros como se ela tivesse três cabeças. – Você é muito inútil mesmo, Hewis! Vamos voltar lá agora e resolver essa situação!
– Ficou louca? – Brisa arregalou os olhos, sendo rebocada novamente pela loura só que, dessa vez, para dentro do Coliseu. – Eu vou voltar lá e dizer o quê?
– Você pode dizer: “Oi, sou uma mochileira californiana fodidamente transável que está sem namorado há um bom tempo! Vamos sair essa noite?”
– Lindsay, você surtou! – ela deu uma risada histérica, sentindo as borboletas no estômago se revirarem de ansiedade e medo, ao passo em que se aproximava do lugar que encontrou o rapaz.
No entanto, ele não estava mais ali. Alguns poucos turistas circulavam pelo local, tirando fotos e tagarelando. As duas pararam, olhando uma para a cara da outra em uma conversa silenciosa.
Puta que pariu, eu perdi de vista um italiano escândalo que encontrei, e agora o seu britânico resolveu fugir também. O que tem de errado com esses homens europeus? – A loura colocou a mão na cintura em incredulidade, fazendo Brisa soltar um suspiro aliviado junto de uma risada trêmula.

Roma, Itália – Trattoria al Moro
20h26min

            “Certa vez eu ouvi dizer que as pessoas felizes são as aquelas que não sonham demais, que não idealizam demais, que não esperam por mais. O motivo provavelmente seria porque tais pessoas jamais se decepcionariam com o mundo ao seu redor e suas expectativas frustradas. Isso é óbvio; elas não teriam expectativas. Mas como viver em um mundo assim? Um mundo sem sonhos, sem esperanças, sem qualquer desejo de que tudo seja um pouco melhor? O ser humano vive de expectativas, e o fato de elas serem frustradas é o que o torna forte o bastante para continuar sonhando cada vez mais alto. O grande problema da humanidade é não separar os sonhos das metas.
Sonhar alto não é pecado; o pecado estará dentro da sua alma quando você chegar a um momento de sua vida e perceber que seus sonhos nunca aconteceram. E a queda pode ser tão grande a ponto de tirar todas as suas expectativas restantes.”.

            – Ai, esse é o melhor restaurante de Roma! – Lindsay falou com a boca cheia de espaguete, ganhando um sorriso de Brisa, que escrevia em seu inseparável bloco de notas.
            – Esse é o primeiro restaurante que viemos em Roma. – ela corrigiu com uma risadinha, parando por um instante ao fitar a amiga – Que palavra rima com “amadurecer”?
            – Sei lá... – deu de ombros, limpando os lábios com um guardanapo enquanto deliberava – “Beber, doer, emagrecer, derreter, estremecer”... – murmurou a última palavra com seu costumeiro olhar de pervertida.
            – Lindsay, o que eu faço com você? – A morena riu, meneando a cabeça em descrença.
            – Tudo bem, que tal... “crer”? “Florescer”?
            – Boa! – ela quase gritou de animação, voltando a rabiscar em seu bloco enquanto sua mente fervilhava em inspiração.

“Sonhos são imprescindíveis, mas as pessoas precisam criar meios de torná-los realidade. Aí sim esse ser humano será pleno de mente e alma, irá desfrutar a vida em toda sua essência. E, um dia, ele terá certeza de que viveu e foi feliz com suas escolhas, pois suas expectativas frustradas o fizeram amadurecer, suas expectativas alcançadas o fizeram crer, mas suas expectativas superadas – ah, essas sim! – o fizeram florescer.”.

– Essa viagem está me fazendo tão bem. – Brisa suspirou, guardando o pequeno caderno e a caneta em sua bolsa, voltando sua atenção ao delicioso carneiro acompanhado das batatas cozidas em seu prato.
– Se isso tiver alguma relação com certo homem inglês que é péssimo em cantadas, mas que é um gato... – A loura mexeu sugestivamente as sobrancelhas, esperando arrancar algum detalhe extra da história.
– Eu já disse, nós nem chegamos a nos conhecer... Foi tudo tão rápido.
– Eu me recuso a aceitar que vocês só trocaram meia dúzia de palavras! – ela repuxou os lábios em um beicinho inconformado, enrolando o macarrão em seu garfo.
– Idem – A bela jovem concordou em um tom baixo, duvidando que a amiga pudesse ter lhe ouvido.
Seus olhos pensantes vaguearam pela trattoria calma e acolhedora, tentando absorver o clima do ambiente para si mesma enquanto sentia sua mente voltada a um belo par de olhos azuis e cabelos revoltos. O rapaz indubitavelmente chamara sua atenção, mas a probabilidade de encontrá-lo novamente em Roma, em meio a tantos cidadãos e turistas, era baixíssima – principalmente com sua passagem de trem a Milão marcada para dali poucos dias. E daí em diante seriam inúmeras outras cidades europeias em seu roteiro, e não um charmoso fotógrafo a que pusera os olhos.

Roma, Itália – Piazza di Trevi
20h49min

Após o proveitoso jantar ao som de alguma música de Andrea Bocelli, as duas caminharam até a Fontana di Trevi, praticamente atrás do restaurante. O sol se punha preguiçosamente em algum lugar do horizonte, o céu de um azul marinho com rajadas rosa e laranja em um ponto e outro.
            Algumas pessoas se espreitavam por entre a extensa bancada que dividia a enorme fonte da praça, a qual era cortada por três vias – tre vie. As águas cristalinas, que lembravam o mar caribenho, antecipavam a belíssima escultura barroca aninhada em frente a um palácio, possuindo a estátua de Netuno – o deus dos mares ou Poseidon, na mitologia grega.
            O barulho nostálgico das águas caindo fez Brisa fechar os olhos e sentir o sopro do vento movimentar seus cabelos, perdida em uma sensação de estar em casa. Era como se ali fosse o pontinho de Roma que exalava romance, sem toda a grandiosidade das arquiteturas comuns da cidade. Voltando a fitar aquela maravilha esculpida em pedras, ela pôde sentir a vivacidade do monumento, como se Netuno rompesse a paisagem em sua carruagem puxada por cavalos-marinhos de uma maneira realmente teatral.
As luzes douradas acesas em pontos estratégicos da escultura davam a tudo um toque ainda mais encantador, como se as estátuas fossem banhadas a ouro e platina. Na verdade, encantador era uma palavra que não supria a verdadeira dimensão daquele instante. A beleza era indefinível.
– Vamos jogar nossas moedas na fonte? – Brisa perguntou a Lindsay, alguns segundos depois, enquanto a ouvia sussurrar “amiga, me belisca”, repetidas vezes, completamente hipnotizada.
– E você acha mesmo que eu perderia essa chance? – rebateu com um sorriso que espelhava o da amiga, ao passo em que ambas se aproximavam das águas.
A loura foi a primeira a jogar uma única moeda na fonte, garantindo seu retorno à Cidade Eterna assim como dizia a tradição. Brisa, no entanto, decidiu seguir um mito diferente, torcendo pelas segundas tradições serem tão certas quanto as primeiras.
– Que Roma me traga um grande amor. – sussurrou para si mesma, observando suas duas moedas mergulharem nas águas cristalinas.
Um par de borbulhares ao lado de seus centavos afundando chamou a atenção da jovem, e, ao procurar a pessoa que também esperava por sua sorte, ela se espantou com um par de revoltos cabelos castanhos claros. Apesar de estar a uma dúzia de turistas, a pele alva e os olhos azulados, compenetrados na grandiosidade da fontana, eram-lhe inconfundíveis.
Brisa teve que se lembrar de como respirar.
Duas moedas, Hewis? Hmmm... Tem alguém querendo arranjar um bofe magia na capital italiana... – Lindsay tirou sarro com seu sorriso de menina sapeca, fazendo a amiga desviar os olhos do rapaz para encará-la preguiçosamente.
– Você é tão cheia de segundas inten...
A morena, porém, não finalizou sua frase repleta de ironia. Ao retornar seu olhar para o charmoso britânico, ele não estava mais ali. No lugar que ele estava, havia apenas uma garota tentando fotografar a paisagem entre dois outros turistas.
Brisa suspirou de frustração, questionando se sua mente estava planejando algum complô contra ela mesma. Ou se seu coração estava achando que poderia se apaixonar facilmente por alguém que ela mal vira. Talvez eu tenha inventado essa merda toda, pensou, ignorando as brincadeiras e os olhares sugestivos da pessoinha irritante que chamava de amiga.

Eu estou num lugar chamado vertigem
É tudo o que eu desejava não saber
A não ser que você me dê algo que eu possa sentir
(U2 – Vertigo)

 
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