Capítulo 2: Milão
É a batida, meu coração pula quando estou com você,
Mas eu ainda não entendo
(Beyoncé - Crazy in Love)
Arredores da Toscana – Trem da ES Italia AV
09h14min
– “Já percebeu que as prateleiras feitas hoje em dia quebram ou então desabam sob o peso das quinquilharias depois de seis meses de uso? O mesmo acontece com as casas, e com as roupas. Esses filhos da puta já inventaram o plástico e com ele poderiam fazer casas que durassem para sempre. E os pneus? Os americanos se matam aos milhões todos os anos com pneus de borracha defeituosa que aquecem nas estradas e estouram.”
– Jack Kerouac é um fodido escritor! Adoro o jeito que ele critica os princípios sociais. – Lindsay murmurou enquanto Brisa fez uma pequena pausa em sua leitura em voz alta de On The Road.
– É o que eu sempre digo! – ela concordou, beijando a testa da maluquinha com a cabeça deitada em seu colo no maior estilo folgada. – O fato de ele ter escrito esse livro na década de 50 já o faz um gênio! Narrar coisas que a sociedade chama de “polêmica”, mas de um modo tão casual, é o que mais me fascina...
– E nesse trecho que você acabou de ler é como se ele tivesse previsto essa crise do euro, sabe? E a gente estando aqui hoje, vendo essas pessoas conseguindo se recuperar e seguir em frente, mesmo com a vida financeira aos frangalhos, é realmente algo a se valorizar.
– Sem dúvidas. – A morena concordou, jogando o exemplar surrado na mochila a sua esquerda, olhando para a janela e vendo o belo dia que estava do lado de fora do trem. – As indústrias fabricando coisas que logo nos farão substituir por outras, o modo compulsivo de pensar e agir, os julgamentos, os preconceitos... Kerouac aborda tanta coisa ao mesmo tempo.
– Uma mente grandiosa produz ideias grandiosas...
– Eu gostaria de escrever algo que fizesse as pessoas repensarem seus estilos de vida, sabe? – murmurou, olhando para a amiga que a fitava curiosa – Não algo que as fizesse apenas se divertirem, mas refletirem, pararem pra pensar se a forma como elas estão vivendo é exatamente a que elas sempre imaginaram. Algo que as fizesse consertar o futuro triste que elas possam ter por causa de toda essa histeria capitalista, essa necessidade de possuir coisas, importando-se com o que os outros vão achar e não no modo como estão alienadas.
– Você já é essa pessoa, baby girl – A companheira sussurrou, pegando a mão de Brisa que se embromava nas mechas platinadas em uma carícia – Eu vejo essa mulher incrível e inteligente que você é, que faz a vida de todo mundo ao seu redor ser um pouquinho melhor. Só falta mostrar ao mundo.
– E você acha que um dia eu chego lá? – ela perguntou com um sorriso brincando em seus lábios.
– Meu bem, você é o tipo de garota que não precisa de uma trilogia de romance sobrenatural pra arrasar! – A loura prontificou, levantando-se do colo da amiga para beliscar a pontinha de seu nariz. Ambas sorriram.
Milão, Itália – Galleria Vittorio Emanuele II
16h52min
Lindsay não sabia para onde olhar, as inúmeras lojas de grife e a arquitetura repleta de mosaicos históricos dividiam sua atenção. Brisa contemplava plenamente a galeria projetada e construída durante a Belle Époque, a qual possuía um nome em homenagem ao primeiro rei da Itália posterior ao seu reconhecimento como país.
Após dois pares de dias na cidade de Roma, as amigas seguiram para a segunda cidade do roteiro de viagem que planejavam desde que terminaram o colegial. E depois de verem pessoalmente a Torre de Pisa, o Pantheon e tantas basílicas e museus de arte na capital italiana, Milão realmente parecia o destino certo.
Elas haviam visitado a belíssima Catedral de Milão – Duomo di Milano – e se encantado com a obra sede da arquidiocese da cidade, uma das mais célebres edificações do estilo gótico europeu. E, mesmo não sendo muito religiosas, seria impossível não se sentirem tocadas pela aura celestial ali abrigada. Era como se um espírito bom e saudável rondasse toda a região – era revigorante.
Os olhos de historiadora, que a jovem loura havia adquirido na faculdade, faziam com que ela pudesse apreciar mais detalhadamente cada pedacinho da arquitetura impecável típica da Itália, explicando vez ou outra para a amiga alguma coisa a mais que havia aprendido em tantas aulas. Mas era óbvio que também estando cercada de tantas boutiques da Gucci, Prada e Louis Vuitton, seria difícil controlar seus hormônios de consumista.
– Se alguém me dissesse que a mesma pessoa que estava criticando o capitalismo estivesse cobiçando bolsas caríssimas, eu não iria acreditar... – Brisa provocou com um sorriso, caminhando ao lado da loura que quase lambia as vitrines.
– Estou apenas dando uma olhadinha... – murmurou travessa – Por que tem que ser tudo tão caro aqui? Não tenho coragem de pagar uma pequena fortuna nisso... Vou esperar pra comprar minhas Pradas quando voltar pra Califórnia!
– Baby, seu pai é podre de rico e te deu um cartão de crédito pra gastar nessa viagem... O que está esperando?
– Eu não sei... E se...
– Lindsay, pode parar com o teatro, eu sei que você não vê a hora de ter aquele Mary Jane nos seus pezinhos. – ela mexeu as sobrancelhas, apontando para o sapato em uma vitrine.
– Ahhh! – O gritinho excitado da loura fez os turistas olharem para as garotas como se fossem malucas, e Brisa tapou os olhos de vergonha, mas sem conseguir esconder uma risada – Não vejo você boazinha assim desde aquela liquidação de livros na Barnes & Noble. Vamos, vamos! – ela agarrou a mão da amiga enquanto a arrastava para dentro da loja mais próxima.
A morena apenas se perguntava como Lindsay conseguia saltitar naqueles saltos altos, torcendo para ela não pagar um mico semelhante ao da Basílica de São Pedro. Ela ria só de lembrar.
– O que acha dessa echarpe? – A garota de cabelos claros perguntou, envolvendo o tecido suave ao redor do pescoço. – Parece àquele do filme Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, não é? – ela riu, desfilando dentro da loja de um lado para o outro enquanto Brisa revirava alguns cabides.
– Não exagera, Lind! – ela riu, o que fez a amiga mostrar a língua.
– É sério, eu sou praticamente A Garota da Echarpe Verde, só falta eu virar colunista de uma revista e encontrar o amor da minha vida.
– Loura psicótica... – A escritora cantarolou, recebendo uns tapas da loura enquanto tentava não rir. – Pelo menos os delírios de consumo você tem igual à personagem!
E é lógico que a loura não deixaria de exercer sua influência de compras na amiga. Na verdade, Brisa tinha uma queda por shopping quando o assunto era livros, perfumes, jaquetas de couro e Converses. Ela tinha praticamente um closet só para seus incontáveis All Stars – um pequeno capricho que adquiriu aos 12 anos e não largou mais.
– Essa jaqueta é a coisa mais linda que eu já vi! – ela falou ao puxar a peça laranja do expositor e mostrar à parceira de viagem.
– Lin-dís-si-ma. – Lindsay quase soletrou, tocando no couro legítimo antes de tirar rapidamente do cabide – Experimente agora!
A morena não perdeu tempo, indo rapidamente ao provador chique e em tons dourados da Gucci, jogando o casaco por cima do delicado suéter preto de malha com mangas na altura do cotovelo, delineando as curvas dos seios e cintura. O item ficou perfeito com seu usual jeans skinny, e ela teve certeza disso ao ver o sorriso de aprovação da amiga quando saiu da cabine.
– E então? – sorriu, dando a famosa voltinha 360º graus.
– B, você está terrivelmente comível!
O veredito a fez soltar uma gostosa gargalhada.
Depois da jaqueta de couro laranja, a tal echarpe verde, uma bolsa Prada, o Mary Jane da Louis Vuitton e uma risada ao verem a conta do cartão de crédito do Papa Hart, as garotas se acalmaram e decidiram dar mais algumas voltas pela galeria.
Os imensos vitrais ao longo do teto, as paredes em tons de ouro, as luminárias douradas e o piso de mármore com mosaicos eram de tirar o fôlego. Havia quatro entradas – as quais possuíam as tantas lojas de grife em seus corredores –, e todas elas rumavam para o grande centro.
– O que será que esses desenhos do chão representam? – Lindsay perguntou à morena, parando no meio do caminho para observarem melhor a obra.
– Ah, as figuras do centro são o octógono formado pelo cruzamento das vias, com o brasão da Casa Savoia no meio, aquela dinastia europeia. – ela apontou para a parte central do lugar, lembrando-se das pesquisas que havia feito antes da viagem. – Essas outras do lado direcionam para cada saída da galeria, representando as quatro cidades que já foram capitais da Itália.
– Milão, Turim, Florença e Roma.
– Exatamente! – Sorriu, identificando as imagens – A que representa Roma é a loba amamentando Rômulo e Remo, de Milão é Napoleão, de Turim é o tão lendário touro...
– Esse é o touro da lenda? Então precisamos pisar nos testículos de um certo bovino! – A loura pulou, fazendo sua pose de machão antes de seguir o mito que todos têm que fazer ao visitar Milão.
A tradição consistia em pisar com o calcanhar do pé direito sobre a genitália do animal e dar um giro sobre ele, e assim fizeram Lindsay e Brisa. Originalmente, o ritual era feito apenas durante a virada de ano, mas logo se tornou uma crença repetida por centenas de turistas e milaneses.
Milão, Itália – Ruas de Brera
21h10min
– Sabe, às vezes eu fico olhando essas construções antigas e tão lindas, essas lojas vintages e fico me lembrando do Matt. – A bela morena disse em um murmúrio, andando por entre uma via que exalava a saudosa boemia tipicamente europeia.
– Lembrando dele de uma forma boa ou...? – A amiga quis saber, desviando os olhos de um vinil de Cole Porter que viu na vitrine de um acolhedor brechó.
– Um pouco dos dois talvez. – Deu de ombros, encarando a loura magra e de pele alva, enquanto caminhavam pelo bairro de Brera repleto de jovens e música dos anos 20. – Eu já não era mais apaixonada pelo Matt há um tempo, mas ele foi tão bom pra mim.
– Eu sei, você acha que deve algo a ele por ter te amado durante tantos anos de relacionamento, mas você não pode ficar remoendo isso; vocês terminaram por um motivo.
– E é exatamente esse motivo que me faz voltar e repensar minhas atitudes.
– B, eu concordo que Matthew era um cara legal, mas ele sempre deixou a desejar em alguns aspectos. – murmurou, abraçando a cintura da amiga que era alguns poucos centímetros mais alta que ela. – Deus sabe quantas noites você aparecia lá em casa depois de ter brigado com o Matt, e sempre pelas mesmas razões!
– Ele nunca entendia a paixão que eu tinha pela arte e pela literatura...
– Ele nunca entendia o fato de você viver pela arte e pela literatura, Brisa. – ela corrigiu. – E Matthew sempre foi um pouquinho egocêntrico demais pra ver algo além de seu próprio umbigo, mesmo sendo um cara simpático.
– Isso é bem verdade! – A escritora riu suavemente, apertando o braço esquerdo nos ombros da companheira em um silencioso “obrigada”. – Além do mais, sempre faltou um pouquinho de ardência em se tratando dele!
– O tapado do Matthew estava precisando te dar um pouco mais de faíscas, baby! – Lindsay falou alto, chamando a atenção de alguns milaneses que passavam por ali.
– Fale mais alto, acho que o Papa não conseguiu te ouvir. – Brisa riu, meneando a cabeça.
– Ah, olha só! – A maluquinha irrompeu, correndo até uma lojinha de souvenires com algumas banquinhas na calçada. – Isso não é a cara do seu ex-namorado bebezão?
As duas riram quando a loura colocou um daqueles óculos medonhos com nariz e bigode, começando a fazer caretas.
– Oi, eu sou o Matthew e pago de intelectual, mas o único livro que eu li foi Um Amor Para Recordar! – ela disse com a voz grossa e seu péssimo sotaque nova-iorquino, ouvindo as risadas da morena.
– Melhor! Meu nome é Matthew e eu adoro garotas supergostosas, mas faço uma exceção pra você, coração! – Brisa o imitou, rebolando com uma bunda de plástico por cima da calça jeans.
Lindsay caiu na gargalhada. E a romancista teve certeza que seu ex-namorado nunca havia sido uma escolha muito sábia. Sempre faltou algo de especial nele, um tempero que a fizesse querer mais, e seu pensamento novamente foi direcionado a um estranho par de olhos azuis que conhecera há poucos dias.
Milão, Itália – Piazza Santa Maria delle Grazie
17h36min
A ostentosa arquitetura gótica e românica de uma das igrejas mais famosas do país era de encher os olhos. E a Basílica Santa Maria delle Grazie tinha um sentido a mais para ser considerada um ponto indispensável em qualquer roteiro de viagem – a polêmica e comentadíssima pintura de Leonardo da Vinci, A Última Ceia.
Os tons brancos das paredes e inúmeros pilares, o tibúrio – cúpula em forma de pirâmide – repleto de imagens geométricas em tons alaranjados, os bancos marrons e o peculiar tom de ouro na igreja eram lindos.
Lindsay estava concentrada em todas as sílabas ditas pelo padre, que foi praticamente coagido pela loura a ensinar cada detalhe que sabia a respeito do artista, pelo qual sempre fora completamente fascinada. Ela já até planejava um trabalho final de curso todo envolto da vida e obra do renomado italiano.
Brisa, por sua vez, contentava-se em se deslumbrar com as imagens impecavelmente esculpidas no teto, embora a saleta simples que abrigava o afresco foi o que mais a encantou. O cômodo não era lá grande coisa, era pequeno, com as paredes brancas e o piso escuro, com uma pintura ou outra – mas na parede central estava A Última Ceia, sem qualquer quadro ou moldura significante. Apenas a arte de Da Vinci eternizada na própria textura.
E lá estava Jesus no centro em toda sua magnificência com seus apóstolos se agrupando ao redor. A garota reconheceu Judas Iscariotes no lado direito da imagem, de cabelos brancos, inclinado sobre João. Ela se intrigou com o pequeno saleiro tombado por Judas, uma clara superstição de azar.
E é claro que a morena não poderia deixar de se lembrar do livro O Código da Vinci, tentando ver a simetria entre os corpos de Jesus e Maria Madalena na pintura, a tão discutida forma de cálice entre os dois, simbolizando uma possível fertilidade da mulher retratada – e as teorias do autor, Dan Brown, sobre herdeiros de Cristo.
– Terminou de extorquir todas as informações do padre? – Brisa brincou com a amiga ao vê-la se aproximar, toda feliz.
– Fiz o que pude! – ela riu, também admirando as belas obras em cada canto da basílica enquanto caminhavam vagamente para a entrada principal – Ele era tão inteligente e bonzinho, explicou muita coisa sobre o lugar.
– Com essa sua cara de serial killer ele tinha que explicar mesmo, matou o pobrezinho de medo!
– Vai se foder, Hewis. – A historiadora a empurrou de lado com uma careta, fazendo a outra rir.
– Uh, palavrão na igreja, loura? – Provocou, recebendo um revirar de olhos de Lindsay antes de ela fazer uma carinha animada um tanto quanto suspeita...
– Está a fim de fazer algo radical?
– Fiquei com medo do seu olhar psicótico junto dessa frase, mas estou dentro!
– Então, vamos brincar de quem fala a palavra “pênis” mais alto? – ela parou, mexendo as sobrancelhas divertidamente ao passo que a morena arregalava os olhos.
– O quê? Aqui, sua doida?
– É o que torna tudo ainda mais radical... – Atiçou, mexendo nos cabelos lisos e claros. – Pênis. – sussurrou baixinho.
– Droga. – A jovem murmurou, rindo antes de seguir a brincadeira ridícula. – Pênis.
– Pênis. – A loura falou um pouco mais alto, com uma risada.
– Pênis. – ela aumentou o tom de voz, olhando para o lado para ver se alguém havia ouvido.
– Pênis.
– Pênis! – Brisa gritou, fazendo a amiga abrir a boca em surpresa ao mesmo tempo em que meia dúzia de pessoas girou seus pescoços para lhe encarar. Ela corou no mesmo instante.
Logo em seguida a risada da parceira foi ouvida, enquanto a morena sentia vontade de cavar um buraco para enfiar a cabeça – as maçãs do rosto queimando com o vermelho. Mas só o que lhe sobrou foi rir também.
– Okay, agora foi muito melhor do que aquela vez que jogamos no casamento da minha tia Matilde. – Lindsay comentou entre risos.
– Claro, daquela vez foi você que pagou o mico na hora do “você já pode beijar a noiva”. – A jovem riu, lembrando-se da cara de pimentão da amiga.
– Ah, você não pode esquecer que...
– Com licença? – Uma voz rouca e suave sem querer interrompeu a frase da loura, e Brisa sentiu todos os pêlos de seu corpo se arrepiarem instantaneamente.
O sotaque britânico naquelas duas palavrinhas fez com que ela se sentisse uma adolescente outra vez. E ela gostava daquela sensação. Na verdade, ela adorava.
A garota virou-se, seguindo a direção da voz e constatando que sua mente não lhe pregara peças. Era ele, o lindo rapaz do Coliseu que estivera em sua cabeça mesmo quando ela se obrigava a tirá-lo dali. E ele estava encantador, como sempre.
– Eu pensei que nunca mais fosse te ver. – ele prosseguiu em um sorriso divertido, os olhos sorrindo igualmente em um brilho adorável.
– É, eu... Pensei a mesma coisa. – Balbuciou ainda meio perturbada com a presença repentina. As palavras pareciam fugir dela.
– E você costuma gritar partes da anatomia masculina sempre que visita conventos e coisas do tipo? – Perguntou com os lábios repuxados para o canto, tentando esconder um sorrisinho maldito.
Filho da mãe provocador, Brisa pensou divertida.
– Não... – A garota olhou para os lados em sua melhor poker face – Só digo isso em ocasiões especiais mesmo. Normal...
O jovem riu com o jeito da morena, deslumbrando-se com os olhos verdes levemente marcados com lápis de olho e longos cílios. As pernas delicadamente torneadas sobre o jeans chamavam a atenção, junto dos Vans vermelhos nos pés e uma camiseta branca de ombro caído, com a tão famosa boca dos Rolling Stones estampada – ironicamente ou não, com a bandeira da Inglaterra enfeitada em lantejoulas na língua do desenho.
Ele sorriu.
– Você sabia que esse desenho significa antiautoridade e sensualidade? – questionou, apontando para a blusa da garota.
– Sério? – inquiriu surpresa, olhando-o curiosamente. Ele estava de tirar o fôlego em calças jeans simples, camisa de linho azul clara e um sapatênis surrado. – Eu me senti uma rebelde sexy agora! – ela riu.
“Rebelde sexy”? What the fuck? Preciso ser internada...
– E você parece uma. – ele murmurou com um leve traço de timidez que fez a garota piscar os olhos rapidamente antes de abrir um singelo sorriso.
– Mas a inspiração em si foi o Mick Jagger, não foi? – A jovem tentou desviar o assunto, proibindo-se de corar em frente ao rapaz. Ela não era do tipo que corava por causa de um homem, por favor!
– É o que parece, mas há quem diga que simboliza a língua de Kali, aquela deusa hindu da criação, vida...
– E destruição. – Brisa completou encantada por um cara tão lindo saber sobre algo tão... diferente. Aliás, ele parecia ser diferente.
– Exatamente.
O sol adentrava a basílica de uma maneira contagiante naquela tarde quando ele a olhou profundamente, tentando enxergar a alma tão cativante que aquela garota possuía. O britânico seria capaz de observá-la por horas sem se cansar.
– Você se importa se... eu bater uma foto sua? É que a luz está perfeita e você é tão linda... – ele ousou a pedir, e só então a americana notou a mesma máquina fotográfica de Roma nas mãos do rapaz, e que Lindsay nem estava mais ali por perto.
– Claro. – Sorriu, jogando os cabelos para trás e olhando para um ponto ao longe antes de ouvir um suave clic. Ao retornar seu olhar para o inglês, no entanto, ela ouviu o som da máquina outra vez.
Ele observou, admirado, as fotografias tiradas, extasiado pela beleza singela e tão inspiradora daquela escritora californiana. Talvez “perfeita” fosse uma palavra casual demais para descrevê-la. Era como se ela passasse sua vivacidade para o retrato.
– Essa basílica é tão linda, não é? – Brisa disse aleatoriamente, suprindo a curiosidade de ver as fotos tiradas ou de perguntar o motivo de ele gostar de fotografá-la. Talvez o ambiente favorecesse.
– É o que eu estou pensando desde que cheguei aqui... E o mais interessante é saber que essa igreja foi bombardeada durante a 2ª Guerra Mundial e ainda está em pé!
– Ah, eu ouvi falar sobre isso. – ela sorriu, espelhando a feição plena do rapaz – Primeiro, construída no século XV e, depois, reformada sem perder os traços originais! Sabe como se fizeram para proteger a pintura de Da Vinci?
– Não, o quê? – ele riu curioso.
– Foram colocados sacos de areia ao redor de toda a parede onde está a pintura, como se fossem trincheiras!
– Muito espertos! – Brincou com ela, não contendo um sorriso de satisfação no rosto.
– Licença um pouquinho... – Lindsay apareceu em um incomum jeitinho delicado e sutil – Vou roubá-la por dois minutinhos, tudo bem? – Comentou com o rapaz, não deixando de notar como ele era fofo. Ela teve vontade de colocar o britânico no colo e cantar uma canção de ninar.
– Eu já volto. – A morena garantiu, seguindo a amiga por um instante.
– Eu vou esperar. – ele sorriu de volta, acenando com a cabeça em um cavalheiro gesto inglês enquanto assistia a bela garota caminhar calmamente até o altar.
Entretanto, o jovem logo foi interrompido por um branquelo com cara de bêbado – só a cara mesmo, porque a última bebida havia sido a da noite anterior – em seu melhor estilo “sou bonito e britânico, todas me querem”.
– Brother, você precisa ver o que está acontecendo lá fora! – Disse ao se aproximar, jogando o braço sobre os ombros do rapaz.
– O que você fez dessa vez? – ele riu, socando o peito do amigo em cumprimento.
– Eu não fiz nada. Ainda. E é por isso que você tem que ver, é rápido!
– Falou, então vamos logo! – Concordou ao ver a morena ainda conversando com a amiga ao longe, calculando o tempo. – Mas, Tom, espera só um...
O maluco que chamava de amigo o rebocou mesmo assim, ansioso como uma criança louca para ver o presente de Natal, rumo à saída principal da igreja, ignorando alguns turistas que circulavam por ali em suas sandalinhas de Jesus.
– Qual é? – O parceiro de viagem choramingou ao varrer os olhos pela praça e não encontrar aquelas belezinhas. – Elas não estão mais aqui?
– Mulher de novo, Tom? – O inglês perguntou divertido, encarando com preguiça o homem ao seu lado.
– Mulheres, no plural, man! – ele emendou, voltando a fitar o amigo com um sorriso malicioso – Cinco espanholas quentes!
– Relaxa, você vai conhecer muitas delas quando chegarmos em Barcelona depois de amanhã!
– Pode crer! Mas elas eram tão gostosas...
– Fique aí chorando que eu preciso voltar. – Provocou o Tom, andando de volta na imensa basílica e encontrar a encantadora morena.
No entanto, ela não estava mais ali. Muito menos a amiga maluquinha loura.
Ele olhou para todos os lados e até pensou em checar debaixo dos bancos da igreja, mas sua rebelde simplesmente desaparecera.
Milão, Itália – Hotel Romana Residence
01h53min
– Eu não acredito que o bofe britânico sumiu de repente hoje mais cedo! – Lindsay murmurou pela terceira vez naquela noite, com a boca cheia de creme dental.
– Muito menos eu. – A amiga comentou, digitando algumas coisas em seu notebook, na escrivaninha ao lado de sua cama.
– Vai ver ele sentiu vontade de fazer xixi e correu para um banheiro! – ela riu ao ouvir as palavras da garota à medida que escovava os dentes.
Brisa estava certa sobre ele enquanto a loura conversava com ela, no altar da basílica, sobre ir a uma palestra acerca de artistas renascentistas e deixá-la flertar com o bonitão. Mas então ele desapareceu tão rápido quanto apareceu, e ela decidiu seguir a amiga na tal palestra.
Duas horas depois, quase especializadas em Michelangelo e Da Vinci, as californianas produziram-se para curtirem uma noite clássica no Teatro alla Scala em uma belíssima ópera, retornando ao hotel pouco depois da meia-noite.
– O destino deve estar brincando com vocês... – A loura comentou em seu pijama, deitando-se na cama em um gemido de satisfação. – Quem sabe o reencontramos por aí?
– Quem sabe?
– Boa noite, B. – ela disse em um sussurro, soprando um beijo para a morena enquanto apagava a luz do abajur.
– Boa noite, baby. – Sorriu, retribuindo o beijinho no ar antes de retomar a atenção à tela do computador; a aconchegante suíte do hotel à meia luz.
Talvez sua quase-irmã tivesse razão sobre o inglês, embora Brisa quisesse negar o efeito que ele possuía sobre ela. Não era de seu feitio se sentir assim por alguém que mal conhecia, mas ele trazia à tona sentimentos há tempo guardados.
E, meneando a cabeça, como se tirasse aqueles pensamentos de sua mente, ela continuou a digitar.
“A vida seria mais bem vivida se as pessoas tivessem almas nefelibatas, cuja definição é alguém que vive nas nuvens. É preciso ter um dos pés no chão, é claro, para amparar uma possível queda de uma nuvem alta demais – mas se ela deixar de ser espessa, se ela deixar toda a sua água cair em forma de uma terrível tempestade, não se deve esquecer que logo um céu claro, com mais nuvens brancas, surgirá.
Seja um nefelibato, haja com um, sem medo de tentar, sem medo do que irão pensar. Tente. Permita-se errar. Entregue-se de corpo e alma ao que você acredita, só não se esqueça de segurar seu coração por um tempo um pouquinho maior. Assim o erro de se perder entre as nuvens será menor, e os resultados serão os dias mais claros possíveis. E você viverá entre as nuvens mesmo que elas deixem de estar ali.”.
A romancista encarou as próprias palavras, pensando em aplicá-las a si mesma. Talvez elas saíram tão espontaneamente como uma mensagem de seu subconsciente, para deixar os “porquês” e os “e ses” de lado. Talvez ela devesse se permitir ser uma nefelibata e sentir como seria estar entre as nuvens.
E talvez ela pudesse reencontrar o jovem britânico em seu próximo destino – aliás, tudo pode acontecer em Barcelona.
Eu não sou eu mesma
Ultimamente eu ando boba, eu não faço isso,
Estive brincando comigo mesma, baby
Eu não me importo
(Beyoncé - Crazy in Love)