Capítulo 1: Roma – Milão
A selva é a sua cabeça
Ela não pode mandar no seu coração
Um sentimento é muito mais forte que
Um pensamento
(U2 – Vertigo)
Roma, Itália – Locanda Colosseo
10h33min
A
capital italiana estava lotada. E quente – tremendamente quente. O número da
unidade acabava de pular de 4 para 5 no painel eletrônico que monitorava o
clima da cidade, e Brisa sorriu ao limpar um filete de suor que começava a
escorrer em sua nuca. Los Angeles costumava ser quente durante o verão, mas
nada que se pudesse comparar a Roma e seus recentes 35ºC.
–
Socorro, amiga! Quero voltar pra LA! – Lindsay e seu costumeiro drama começaram
a se apresentar enquanto ela retornava ao quarto, começando a revirar sua mala.
–
Tem certeza? – Brisa sorriu maliciosamente, olhando rapidamente para a amiga ao
colocar um fio de cabelo atrás da orelha. – Não foi você que estava louca pra
conhecer alguns italianos?
–
Tudo bem, Roma é incrível! – ela disse animadamente, jogando as mãos para cima
e se esparramando na cama. – Você viu aquele moreno gatíssimo que ajudou a trazer nossas malas? E ele me desejou boa
estadia no hotel! Com certeza eu terei uma boa estadia se encontrá-lo mais
tarde...
–
Céus, Lindsay, não estamos na cidade há nem duas horas e você já quer dormir
com o primeiro europeu que aparece? – Brisa riu, estreitando os olhos, ainda
debruçada no parapeito da varanda, tentando admirar cada traço do Coliseu, ao
longe.
–
Não é todo dia que encontramos com um italiano de tirar o fôlego em
plena Itália! Mas já que homens não fazem meu tipo, você
bem que poderia ter uma boa estadia com ele... – murmurou toda sensual, jogando
um travesseiro nas costas de Brisa. – E olhe pra mim enquanto eu falo com você,
sua bitch!
–
Adoro você e seus doces apelidos, mas deixe de ser pervertida pelo menos uma
vez na vida! – ela falou, pegando o travesseiro e o acertando no nariz
arrebitado e convencido da loura, retornando ao quarto. Ambas riram antes de
Brisa ser puxada para o lado da amiga, na enorme cama.
–
Não posso prometer isso, nasci assim... – continuou rindo, cheia de segundas
intenções – Mas eu prometo que vamos fazer dessa viagem a melhor de nossas
vidas, baby girl! – Lindsay exclamou,
beijando uma das bochechas da morena.
–
Se eu estiver ao seu lado, com certeza, loura psicótica!
–
Já falei que loura psicótica é a sua avó – grunhiu, mostrando a língua ao
levantar-se num salto – Vamos nos trocar? Preciso arrasar no look e parecer uma perua mafiosa!
–
Hm, está incorporando mesmo o estilo de vida italiano... Se você quiser estrelar
O Poderoso Chefão, é claro! – ela
riu, rolando na cama para avistar a criatura de mechas platinadas revirando uma
das malas.
Ela
apenas recebeu um daqueles famosos olhares de “está brincando com a minha cara,
bitch?”, o que a fez rir ainda mais.
–
Pulp Fiction então?
–
Vai se danar, Brisa Hewis! E eu sou muito mais tudo de bom que a Uma Thurman naquele filme! Se eu tivesse esse meu
corpinho em 1994 ao invés de ser uma baby
superfofa, o Tarantino ia implorar pra eu interpretar Mia Wallace.
–
Aham, sem dúvida alguma...
–
E então a Uma Thurman não faria tanto sucesso e eu seria cotada pra todos os
filmes no lugar dela, viraria a queridinha da América, seria indicada ao Oscar
em 95, ganharia um Globo de Ouro em 2002, e a atriz Uma Thurman jamais
existiria!
–
Ai, Lind, às vezes eu tenho medo de você – A morena meneou o cabeça, rindo,
perguntando-se que droga Lindsay havia tomado dessa vez.
– A Uma Thurman é tão foda, não é? E ela se parece comigo,
somos lindas e louras de olhos azuis. Seria tão divo se eu também fosse famosa e fôssemos BFFs. – É, com certeza a droga que ela tomou não foi a do juízo
perfeito já que a loura nunca parecia estar sóbria, mesmo se estivesse!
E
era isso uma das coisas que Brisa mais gostava em sua amiga, seu modo acriançado
de ver o mundo, mesmo que meio louquinho às vezes. Lindsay era a diversão em
pessoa – adorava tomar todas,
divertir-se em boas festas regadas a muita vodca, e provocar os garotos que
davam em cima dela, já ela gostava das garotas. A loura assanhada e seu jeito
feliz contagiavam qualquer um.
–
Vamos, B, levante essa bunda de J-Lo da cama e me ajude a montar meu look!
–
Você sabe que não pode entrar de roupa curta e decotada nas catedrais, né? –
Brisa riu, vendo a amiga escolher seu famoso conjuntinho sou-uma-turista-solteira-procurando-por-diversão;
leia-se: short jeans com a estampa da
bandeira dos Estados Unidos e uma regata escrita “I love Italy”. Totalmente original.
–
Poxa, justo agora que eu tinha desistido da minha fantasia de mafiosa pra usar
algo mais casual... – Soltou um muxoxo, repuxando os lábios rosados e finos num
beicinho manhoso.
Roma, Itália – Piazza del
Colosseo
18h21min
Uma
hora perdida, dois italianos esquisitões que ofereceram carona, três
mochileiros mexicanos bonitões e oito orações mentais de que o Papa aparecesse
para tirá-las daquela situação, até que, finalmente, as amigas conseguiram
retornar ao ponto de partida e visitar o Coliseu.
–
Não acredito que você nunca toma jeito nessa vida! – Brisa ralhou com a amiga,
formando uma concha com a mão para tapar os olhos do sol. Já seria noite se
comparado à metade do mundo, mas os verões na Itália costumavam ver o dia cair apenas
por volta das 21 horas.
–
Como assim eu nunca tomo jeito? – ela perguntou incrédula, ainda mancando por
entre as ruas de pedra.
– Lindsay,
você armou o maior berreiro porque o seu salto quebrou no meio da Basílica de São Pedro. – A garota de
cabelos castanhos claros, agora avermelhados por conta da luz do sol, respondeu
como se fosse óbvio.
– Foi um mico,
não foi? – Sua risada escapou no meio da frase enquanto ela cobria os olhos de
vergonha, fazendo Brisa soltar a gargalhada que ela tentava segurar. – Espero
que Maria tenha me perdoado.
– Não acredito
que seu salto quebrou na frente da obra de Michelangelo! Todo mundo sério e
admirando a escultura da Virgem segurando o corpo morto de Jesus e, bum, sua bunda espatifa no chão! – Brisa
ria ao se lembrar da cara da amiga. Foi o melhor tombo da loura que ela já
tinha visto.
– E eu achando
que iria me comover vendo La Piet pessoalmente,
ao invés dos slides das aulas de
Renascimento... E minha única recordação será o tombo e a minha Prada arruinada! – ela choramingou, não
sabendo se ria ou chorava diante da situação – E do jeito que aqueles turistas
eram doidos, devem ter colocado um vídeo no YouTube
pro mundo inteiro rir do meu mico em escala global!
Brisa passou o
braço ao redor dos ombros magros da amiga enquanto caminhavam rumo à Praça do Coliseu, rindo de tanto
melodrama e desespero juntos.
O movimento
estava calmo por ali, a luz do sol ainda despontando, algumas pessoas que
passavam por perto em suas motocicletas ou naqueles fuscas antigos e de cores
chamativas. Era tudo lindo por ali, sem contar nos prédios antigos e em tantas
obras de arte que Roma carregava a céu aberto.
– Pense pelo
lado positivo, se você realmente estiver no YouTube
quem sabe o Tarantino não veja o talento da minha loura desastrada e a chame
pro seu próximo grande filme?
– Seria
incrível, não seria? – Os grandes e redondos olhos azuis brilharam, e Lindsay
soltou-se da amiga e ficou quicando de um lado para o outro em seu vestido
florido. – Se a minha carreira como futura professora de História da Arte falhar, eu bem que poderia ser uma atriz de
sucesso... Eu iria arrasar!
– Com certeza
iria!
– E você,
hein? Nem pra ter vestido uma roupa decente! Quando eu ficar famosa e a Ellen Degeneres fizer uma entrevista
comigo e mostrar esse vídeo, vão me ver toda diva no meu vestido Dolce & Gabbana e você assim... –
ela meneou a cabeça, parando no meio da rua para olhar a amiga de cima a baixo.
– Jeans e camiseta são muito mais
confortáveis. – Brisa se defendeu, olhando sua roupa com a estampa do álbum “The Dark Side of The Moon”, do Pink
Floyd, com um nó na barra pra diminuir o tamanho enorme. Logo voltou a
caminhar, avistando o Coliseu já de pertinho. – Ainda mais essa camiseta! Jared
não me deixou trazê-la pra viagem, então eu roubei do armário dele minutos
antes de sairmos de Los Angeles! – Confessou rindo, fazendo Lindsay
acompanhá-la.
– Quero ver a
cara dele quando souber!
– O Alexander
me deu cobertura, mas Jared já descobriu! Recebi uma mensagem de texto agorinha
dizendo que, quando eu voltar pra casa, terei uma surpresinha! – Riu ainda
mais.
– Será que ele
vai vestir o cachorro dele com um dos seus biquínis de novo?
– Não... Meu
irmão vai planejar algo pior... Principalmente quando descobrir que eu peguei
outras três camisetas dele!
As duas riram,
deliciando-se da felicidade de se conhecerem há tanto tempo. Lindsay era, sem
sombra de dúvidas, sua melhor e mais fiel amiga – que poderia dizer o mesmo de Brisa.
Elas se conheceram no colegial, numa festa do capitão do time de futebol
americano – diga-se de passagem, um tapado
–, quando certa loura apareceu toda bêbada na frente da morena, dizendo que
tinha acabado de terminar com sua namorada quando decidiu afogar as mágoas.
Resultado:
Brisa a chamou de louca e Lindsay começou a chorar, mas depois que ela tropeçou
e caiu na piscina, B teve que levar a maluca para casa, até que ambas
concordaram que nenhuma delas tinha saco
para curtir aquele tipo de festa. E as duas passaram o restante da noite
assistindo Supernatural, com uma
pizza e duas cervejas.
– Ah, existe
coisa mais linda que o Coliseu? – ela ouviu um suspiro escapar dos lábios de
Lindsay, ambas paradas enquanto babavam em frente ao monumento.
– É perfeito,
não é? Parece que voltamos à época do Império Romano.
– Só falta o
Russell Crowe aparecer e dizer que vai ser o meu gladiador! – Lindsay riu,
olhando pra amiga com um sorriso sapeca.
– Tem certeza
que você é lésbica? – ela debochou, aproximando-se da entrada do anfiteatro
enquanto admirava cada cantinho.
– Para o
Russell eu faria uma exceção... E para o Hugh Jackman, Bradley Cooper e aquele
gatinho que canta “But tonight I'm loving you”... – A loura riu, cantarolando
ao final da frase.
– Enrique
Iglesias? – Brisa questionou, olhando para a amiga com uma das sobrancelhas arqueadas.
– É, esse eu também pegava. – concordou; ambas rindo.
– B, eu vou
passar bem rápido no hotel e depois encontro você lá dentro do Coliseu, ok? –
Lindsay prometeu enquanto ela e a amiga se aproximavam da entrada.
– Por que, sua
louca? Eles vão fechar daqui a pouco!
– Eu não posso
entrar pela primeira vez no Coliseu com um sapato com salto e outro não, né? –
Esclareceu com uma careta, apontando para o Peep
Toe vermelho.
– Tudo bem,
mas não demora! – A morena pediu com uma carranca, recebendo um beijinho na
bochecha antes de ver a baixinha correr até o hotel que ficava a alguns minutos
dali.
Depois de
entregar seu bilhete, Brisa pôde, enfim, desfrutar da história viva que
guardava cada canto do imenso Anfiteatro
Flaviano. Realmente de um tamanho colossal, fazendo jus à própria origem de
seu nome.
Poucos
turistas circulavam por ali devido ao horário, podendo oferecer a chance daquela
jovem escritora de Los Angeles de se sentir maravilhada pela dimensão daquela
obra. Visitar o Fórum Romano, observar as belas catedrais do Vaticano e admirar
as obras de Michelangelo na Capela Sistina não possuíam a metade da magia que
exalava pelo Coliseu. Talvez pelo fato de ser uma amante da História Antiga,
talvez pelo fato de ser uma simples estudante de Literatura Inglesa que sempre sonhou em pisar num lugar tão
utilizado por tantos escritores.
Brisa estava
embevecida ao olhar aquelas paredes de pedra que a cercavam, mas ao avistar a
arena, ela não sabia nem o que se passava por sua mente. Era como se ela
pudesse ver os gladiadores lutando por suas vidas, batalhando com suas espadas
enquanto jorravam sangue de suas entranhas. Ela quase podia ver os milhares de
cidadãos romanos vibrando nas arquibancadas e o imperador em seu lugar
especial, ao lado de sua esposa, aguardando o momento em que pudesse demonstrar
sua decisão final: matar ou não matar o gladiador derrotado.
Obviamente ela
sabia que todo aquele show não
bastava de uma distração para o povo. A morena lembrava-se muito bem de estudar
a Política do Pão e Circo que os
imperadores propunham para evitar rebeliões das classes mais baixas – coisa não
muito diferente do século XXI –, mas estar ali e imaginando todas aquelas
cenas, fazia com que ela se sentisse importante. E quando o sol adentrou a
arena e iluminou Brisa, ela se experimentou como parte da própria história.
No entanto,
algo chamou sua atenção. Um baixo clic
soou ao seu lado esquerdo e, ao semicerrar os olhos para enxergar melhor, ela
avistou um belo garoto. Garoto não, um homem.
– Você vem sempre aqui? – ele puxou
assunto com um sorriso de lado, segurando uma máquina fotográfica profissional.
Ambos riram da cantada terrível. – Tudo bem, eu sou péssimo com cantadas e
garotas bonitas. Só achei indispensável ter uma paisagem maravilhosa como essa e,
quando digo paisagem, eu me refiro a você.
Brisa soltou
outra risada diante da cara de pau do
rapaz, mas ela não poderia negar que o sotaque britânico, em cada uma de suas
palavras, era de derrubar calcinhas.
– Você é
sempre desequilibrado assim com todas as garotas que conhece? – ela murmurou sarcástica,
mal contendo o riso, enquanto o via se aproximar.
– Só com as que andam por aí de All Star e camisetas do Pink Floyd. –
respondeu com um sorriso divertido, embora levemente tímido. E a morena ficou
parcialmente entorpecida com os olhos brilhantes, esquecendo-se do comentário
irônico que estava prestes a revidar.
O azul nas
íris do jovem continha um tom esverdeado que deixava seu olhar hipnotizante, e
Brisa perguntou-se qual deveria ser a sua cor sem o contraste da luz do sol.
Ele era realmente lindo, mas não daquele tipo de beleza que você quase
hiperventila e depois solta um suspiro pré-apaixonado – sua beleza era daquelas
que você tem vontade de ficar observando pra ver se tem alguma outra coisa que
o faça parecer ainda mais encantador.
Os olhos
pequenos, o nariz simétrico e a boca rosada em uma linha pareciam perfeitamente
naturais entre as maçãs do rosto e a mandíbula marcada, cobertas por pequenos
pêlos que começavam a despontar em uma barba por fazer. A pele pálida,
levemente avermelhada pelo dia, deixava-o particularmente tentador; e os
cabelos de um castanho bem claro eram a peça final, no famoso estilo bagunçado
de qualquer jovem britânico.
Brisa
surpreendeu-se ao ver que agora, pertinho dela, o rapaz era bem mais alto que
seus míseros 1,65 metros.
Entretanto, olhou bem séria para ele.
– Hey, por acaso você não tem um mapa em
mãos? – ela perguntou, o que o fez encará-la com surpresa.
– Não, acho
que não. – Tateou os bolsos da calça rapidamente, franzindo o cenho antes de
voltar a fitar os olhos verdes da garota. – Por quê?
– Ah, porque
eu acabei de me perder no brilho dos seus olhos.
Ele olhou
incrédulo para a morena e os dois caíram na gargalhada. A risada do jovem era
deliciosamente agradável misturada à de Brisa, enquanto ele ainda se recuperava
do humor nada convencional daquela pequena estranha. Ela era diferente de todas
as mulheres que havia conhecido, provavelmente por seu jeito sincero e
espontâneo de ser – coisa que ele já poderia afirmar mesmo com aqueles poucos
minutos estando ao seu lado.
Ambos
olharam-se amistosamente, tentando ler a mente um do outro enquanto mordiam os
lábios para conter os risos. O clima instalado era incrivelmente ameno e sutil,
e uma guerra poderia ser estourada há alguns metros dali que nenhum dos dois
sequer notaria. Era como se uma bolha os envolvesse.
E, naquele
instante, o jovem se sentiu completamente perdido por entre os olhos de Brisa.
Eles possuíam um traço felino que o intrigou, como se fossem os olhos de um
puma, com aquele tom de verde claro com pequenos salpicos cor de mel ao redor
da pupila. Suas feições tão delicadas davam-lhe um ar de menina, contrapondo-se
aos olhos tão maduros; os lábios cheios e avermelhados e a pele alva e
impecável eram praticamente um convite ao pecado. Ela deveria ser a garota mais linda que já havia visto.
– Sua biiiitch, você não vai acreditar no que
eu acabei de ver! – Uma Lindsay louca chegou correndo toda esbaforida, fazendo
Brisa dar um pulo de susto. – Você
precisa ver também e dizer que eu não estou sonhando!
– O que
aconteceu? – A morena questionou, em um misto de surpresa e frustração,
sentindo os olhos azuis do belo rapaz, banhados de curiosidade, perfurando as
duas.
– Você tem ver
com os próprios olhos, né?
E a loura
impaciente e agitada simplesmente arrastou a amiga pra fora do Coliseu, sequer
dando a possibilidade de uma apresentação entre Brisa e o britânico do sotaque
de derrubar calcinhas.
– Ele é a
coisa mais linda que eu já vi, amiga! Pode acrescentá-lo a minha lista, logo
depois do Russell Crowe e Bradley Cooper! – A loura repuxou os lábios finos em
um sorriso travesso, os grandes olhos azuis brilhando.
– Como é? Ele? Lindsay Hart, não me diga que você
aprontou esse drama por causa de um homem! – ela olhou feio pra amiga, já do
lado de fora do imenso anfiteatro.
– É aí que
surge a mágica, baby! Ele não é
apenas um homem, é um deus grego, tipo um semideus dos livros do Percy Jackson! – Suspirou, olhando para
os lados em busca do dito cujo. – E falando em deus, o que era aquilo dentro do Coliseu?
– Pois é,
estaríamos no maior papo agora se você não tivesse empatado tudo. – A morena ergueu a sobrancelha para complementar
seu comentário irônico, fazendo a amiga encará-la no mesmo instante, toda
curiosa.
– Brisa, sua
safada, você estava dando em cima dele?
– Não exatamente... – Inclinou a cabeça,
pensando em algo que definiria o momento de minutos antes.
– É claro que
estava! – Lindsay soltou uma gargalhada gostosa, batendo palmas enquanto
quicava. – E vocês trocaram telefone? Marcaram de se encontrar hoje à noite pra
darem uns amassos? Aliás, qual o nome dele? Ele tem cara de britânico, todo
fofo e branquinho daquele jeito... Ele é britânico?
– A gente
tinha acabado de se conhecer, nem nos apresentamos. – ela riu, incapaz de ficar
furiosa com a amiga por muito tempo.
– Como assim?
– A jovem parou no mesmo instante, encarando a garota de cabelos escuros como
se ela tivesse três cabeças. – Você é muito inútil mesmo, Hewis! Vamos voltar
lá agora e resolver essa situação!
– Ficou louca?
– Brisa arregalou os olhos, sendo rebocada novamente pela loura só que, dessa
vez, para dentro do Coliseu. – Eu vou voltar lá e dizer o quê?
– Você pode
dizer: “Oi, sou uma mochileira californiana fodidamente
transável que está sem namorado há um bom tempo! Vamos sair essa noite?”
– Lindsay,
você surtou! – ela deu uma risada histérica, sentindo as borboletas no estômago
se revirarem de ansiedade e medo, ao passo em que se aproximava do lugar que
encontrou o rapaz.
No entanto,
ele não estava mais ali. Alguns poucos turistas circulavam pelo local, tirando
fotos e tagarelando. As duas pararam, olhando uma para a cara da outra em uma
conversa silenciosa.
– Puta que pariu, eu perdi de vista um
italiano escândalo que encontrei, e agora o seu britânico resolveu fugir
também. O que tem de errado com esses homens europeus? – A loura colocou a mão
na cintura em incredulidade, fazendo Brisa soltar um suspiro aliviado junto de
uma risada trêmula.
Roma, Itália – Trattoria al Moro
20h26min
“Certa vez eu ouvi
dizer que as pessoas felizes são as aquelas que não sonham demais, que não
idealizam demais, que não esperam por mais. O motivo provavelmente seria porque
tais pessoas jamais se decepcionariam com o mundo ao seu redor e suas
expectativas frustradas. Isso é óbvio; elas não teriam expectativas. Mas como
viver em um mundo assim? Um mundo sem sonhos, sem esperanças, sem qualquer
desejo de que tudo seja um pouco melhor? O ser humano vive de expectativas, e o
fato de elas serem frustradas é o que o torna forte o bastante para continuar
sonhando cada vez mais alto. O grande problema da humanidade é não separar os
sonhos das metas.
Sonhar alto não é pecado; o pecado estará
dentro da sua alma quando você chegar a um momento de sua vida e perceber que
seus sonhos nunca aconteceram. E a queda pode ser tão grande a ponto de tirar
todas as suas expectativas restantes.”.
–
Ai, esse é o melhor restaurante de Roma! – Lindsay falou com a boca cheia de
espaguete, ganhando um sorriso de Brisa, que escrevia em seu inseparável bloco
de notas.
–
Esse é o primeiro restaurante que
viemos em Roma. – ela corrigiu com uma risadinha, parando por um instante ao
fitar a amiga – Que palavra rima com “amadurecer”?
–
Sei lá... – deu de ombros, limpando os lábios com um guardanapo enquanto
deliberava – “Beber, doer, emagrecer, derreter, estremecer”... – murmurou a última palavra com seu costumeiro olhar
de pervertida.
–
Lindsay, o que eu faço com você? – A morena riu, meneando a cabeça em
descrença.
–
Tudo bem, que tal... “crer”? “Florescer”?
–
Boa! – ela quase gritou de animação, voltando a rabiscar em seu bloco enquanto
sua mente fervilhava em inspiração.
“Sonhos são imprescindíveis, mas as pessoas
precisam criar meios de torná-los realidade. Aí sim esse ser humano será pleno
de mente e alma, irá desfrutar a vida em toda sua essência. E, um dia, ele terá
certeza de que viveu e foi feliz com suas escolhas, pois suas expectativas
frustradas o fizeram amadurecer, suas expectativas alcançadas o fizeram crer,
mas suas expectativas superadas – ah, essas sim! – o fizeram florescer.”.
– Essa viagem
está me fazendo tão bem. – Brisa suspirou, guardando o pequeno caderno e a
caneta em sua bolsa, voltando sua atenção ao delicioso carneiro acompanhado das
batatas cozidas em seu prato.
– Se isso
tiver alguma relação com certo homem inglês que é péssimo em cantadas, mas que
é um gato... – A loura mexeu
sugestivamente as sobrancelhas, esperando arrancar algum detalhe extra da
história.
– Eu já disse,
nós nem chegamos a nos conhecer...
Foi tudo tão rápido.
– Eu me recuso
a aceitar que vocês só trocaram meia dúzia de palavras! – ela repuxou os lábios
em um beicinho inconformado, enrolando o macarrão em seu garfo.
– Idem – A
bela jovem concordou em um tom baixo, duvidando que a amiga pudesse ter lhe
ouvido.
Seus olhos
pensantes vaguearam pela trattoria
calma e acolhedora, tentando absorver o clima do ambiente para si mesma
enquanto sentia sua mente voltada a um belo par de olhos azuis e cabelos
revoltos. O rapaz indubitavelmente chamara sua atenção, mas a probabilidade de
encontrá-lo novamente em Roma, em meio a tantos cidadãos e turistas, era
baixíssima – principalmente com sua passagem de trem a Milão marcada para dali
poucos dias. E daí em diante seriam inúmeras outras cidades europeias em seu
roteiro, e não um charmoso fotógrafo a que pusera os olhos.
Roma, Itália – Piazza di Trevi
20h49min
Após o
proveitoso jantar ao som de alguma música de Andrea Bocelli, as duas caminharam
até a Fontana di Trevi, praticamente
atrás do restaurante. O sol se punha preguiçosamente em algum lugar do
horizonte, o céu de um azul marinho com rajadas rosa e laranja em um ponto e
outro.
Algumas
pessoas se espreitavam por entre a extensa bancada que dividia a enorme fonte
da praça, a qual era cortada por três vias – tre vie. As águas cristalinas, que lembravam o mar caribenho,
antecipavam a belíssima escultura barroca aninhada em frente a um palácio,
possuindo a estátua de Netuno – o
deus dos mares ou Poseidon, na
mitologia grega.
O
barulho nostálgico das águas caindo fez Brisa fechar os olhos e sentir o sopro
do vento movimentar seus cabelos, perdida em uma sensação de estar em casa. Era como se ali
fosse o pontinho de Roma que exalava romance, sem toda a grandiosidade das
arquiteturas comuns da cidade. Voltando a fitar aquela maravilha esculpida em
pedras, ela pôde sentir a vivacidade do monumento, como se Netuno rompesse a
paisagem em sua carruagem puxada por cavalos-marinhos de uma maneira realmente
teatral.
As luzes
douradas acesas em pontos estratégicos da escultura davam a tudo um toque ainda
mais encantador, como se as estátuas fossem banhadas a ouro e platina. Na
verdade, encantador era uma palavra
que não supria a verdadeira dimensão daquele instante. A beleza era
indefinível.
– Vamos jogar
nossas moedas na fonte? – Brisa perguntou a Lindsay, alguns segundos depois,
enquanto a ouvia sussurrar “amiga, me belisca”, repetidas vezes, completamente
hipnotizada.
– E você acha
mesmo que eu perderia essa chance? – rebateu com um sorriso que espelhava o da
amiga, ao passo em que ambas se aproximavam das águas.
A loura foi a
primeira a jogar uma única moeda na fonte, garantindo seu retorno à Cidade Eterna assim como dizia a
tradição. Brisa, no entanto, decidiu seguir um mito diferente, torcendo pelas
segundas tradições serem tão certas quanto as primeiras.
– Que Roma me
traga um grande amor. – sussurrou para si mesma, observando suas duas moedas mergulharem nas águas cristalinas.
Um par de
borbulhares ao lado de seus centavos afundando chamou a atenção da jovem, e, ao
procurar a pessoa que também esperava por sua sorte, ela se espantou com um par
de revoltos cabelos castanhos claros. Apesar de estar a uma dúzia de turistas,
a pele alva e os olhos azulados, compenetrados na grandiosidade da fontana, eram-lhe inconfundíveis.
Brisa teve que
se lembrar de como respirar.
– Duas moedas, Hewis? Hmmm... Tem alguém
querendo arranjar um bofe magia na
capital italiana... – Lindsay tirou sarro com seu sorriso de menina sapeca,
fazendo a amiga desviar os olhos do rapaz para encará-la preguiçosamente.
– Você é tão
cheia de segundas inten...
A morena,
porém, não finalizou sua frase repleta de ironia. Ao retornar seu olhar para o
charmoso britânico, ele não estava mais ali. No lugar que ele estava, havia
apenas uma garota tentando fotografar a paisagem entre dois outros turistas.
Brisa suspirou
de frustração, questionando se sua mente estava planejando algum complô contra
ela mesma. Ou se seu coração estava achando que poderia se apaixonar facilmente
por alguém que ela mal vira. Talvez eu
tenha inventado essa merda toda, pensou, ignorando as brincadeiras e os
olhares sugestivos da pessoinha irritante que chamava de amiga.
Eu estou num lugar chamado vertigem
É tudo o que eu desejava não saber
A não ser que você me dê algo que eu possa sentir
(U2 – Vertigo)